Conheça o histórico de bruxas no Brasil

Depois da história do local mais assombrado do mundo

arquivo do horror

O assunto “bruxaria” já foi abordado inúmeras vezes tanto na literatura quanto no cinema, mas sempre focando acontecimentos ocorridos na Europa ou nos Estados Unidos.

O que pouca gente sabe é que queimar pessoas na fogueira sob a acusação de “bruxaria” também foi uma prática que ocorreu aqui no Brasil.

Os casos não são numerosos, porém, a Igreja também fez suas vítimas em terras tupiniquins entre os séculos XVI e XVIII.

Como no Brasil o poder religioso era exercido pela Igreja Católica, ficava sob responsabilidade dela investigar as acusações de “bruxaria”, embora ela não tenha sido a única responsável por suprimir o que considerava heresia. Em alguns países protestantes, como a Alemanha, essa prática também existiu.

No Brasil um total de 1076 pessoas foram investigadas, sendo que 29 foram levadas à fogueira, homens e mulheres.

Utilizo o termo entre aspas, “bruxaria”, por considerá-lo extremamente subjetivo, deixando de lado aquela antiguada imagem da velha de chapéu e vassoura e seguindo seu real contexto.

Para a Igreja, toda e qualquer crença que não seguisse seus dogmas era considerada “bruxaria”, ainda que elas fossem apenas religiões seguidas pelos povos subjugados por ela. Toda divindade pagã passou a ser considerada demoníaca e seus devotos tinham duas opções: abandonar sua fé e se converter ou encontrar a morte.

bruxa 1

No Brasil não foi muito diferente, por aqui as acusações se sustentaram em práticas que se baseavam em um misto de sabedoria popular, utilização de recursos naturais para o tratamento e cura de doenças, adoração de entidades estranhas à Igreja ou o simples fato de se discordar dela.

Citarei apenas alguns casos que foram considerados como “bruxaria” aqui no Brasil, onde ficam evidentes as reais intenções dos acusadores.

No Brasil o Tribunal do Santo Ofício nunca foi instaurado, ainda que tenham ocorrido três Visitações do Santo Ofício às terras brasileiras.

bruxa 3

Os “Visitadores”, que eram os enviados de Portugal pelo Tribunal com o intuito de averiguar algum tipo de acusação, estiveram apenas nas capitanias prósperas na época: Grão-Pará, Pernambuco e Bahia.

Como na época São Paulo não era nada além de um pobre aglomerado de algumas dúzias de ruas e vielas ao redor do rio Tamanduateí, a caça às bruxas ficou a cargo do clero local.

Ainda assim algumas mulheres acusadas de “bruxaria” conheceram a morte na fogueira da “Inquisição paulistana”.

Não muito diferente dos dias atuais, naquela época , ao se deparar com o termo “bruxaria” o povo logo imaginava pessoas que manipulavam energias malignas e mantinham algum tipo de contato com demônios, mas conforme veremos a seguir, os casos passavam longe disso.

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Em 1692 Mima Renard e seu marido mudaram-se da França para o Brasil e acabaram se instalando na ainda Vila de São Paulo. Mima era uma mulher muito bela e talvez essa tenha sido sua maldição.

Ela despertava a cobiça dos homens e, consequentemente, a inveja das mulheres da vila, tanto que seu marido foi assassinado. O acusado pelo crime foi um homem, casado, que pretendia abandonar a família e toma-la como esposa.

Sozinha, sem ter como se manter, Mima foi levada à prostituição.

Uma mulher tão desejada pelos homens, agora sendo uma prostituta, levou a comunidade masculina ao delírio e, claro, o ódio das mulheres pela francesa aumentou ainda mais.

bruxa queimada

Mima tinha tudo para ter uma vida confortável, porém uma crise de ciúme entre seus clientes (ambos casados) resultou em novo assassinato.

Diversas pessoas se queixaram ao padre local sobre Mima, acusando-a de usar feitiços que enlouqueciam os homens e, como resultado, a bela francesa foi queimada viva.

Em 1750 foi aberto um processo acusando Isabel Pedrosa de Alvarenga de “bruxaria”. A acusação partiu de um dos “familiares do Santo Ofício” (como eram chamados os espiões da Igreja). Segundo ele, Isabel carregava um saco contendo umbigos de crianças, tufos de cabelo, panos ensopados de sangue, bicos de pássaros e toda espécie de material bizarro que seria utilizado para a prática de feitiçaria.

Na verdade Isabel nada mais era do que uma mulher pobre que vivia nas ruas à custa de esmolas.

Mesmo sem jamais admitir estar envolvida com a prática de “bruxaria”, foi condenada à morte.

Outro caso, não menos revoltante, se deu em 1754 com Ursulina de Jesus.

Casada com Sebastião, figura bastante importante na região, foi acusada pelo próprio marido de praticar “bruxaria”. Segundo ele, a esposa fazia feitiços para retirar-lhe a virilidade e assim evitar que tivessem filhos.

No processo aberto pela Igreja, por incrível que pareça, consta o depoimento de Cesárea, a amante de Sebastião, confirmando seu insucesso sexual.

Dois anos após a morte de Ursulina, Cesárea e Sebastião se casaram, sem nunca terem tido filhos.

Outro caso aconteceu em 1798 e a acusada da vez foi Maria da Conceição.

Igreja promovia mortes de bruxas no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.

Igreja promovia mortes de bruxas no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.

Maria era conhecida na vila de São Paulo por preparar poderosos remédios e poções para atrair o sexo oposto. O sucesso dos seus produtos era tamanho que ela passou a gozar de certa reputação.

Porém, por algum motivo desconhecido, ela ganhou a antipatia de um padre, chamado Luís, e logo a acusação de “bruxaria” caiu sobre ela.

Maria foi queimada viva em uma fogueira próxima ao Convento de São Bento, no centro de São Paulo.

O caso de Adelaide Quintana é ainda mais surreal e revoltante. Viúva, ela herdara a fortuna de seu marido e, por não ter filhos, tinha uma vida solitária. Para dar um propósito à sua vida ela passou a levar para casa crianças que encontrava na rua. Lá elas eram alimentadas e ganhavam roupas novas. Geralmente essas crianças eram filhas de operários.

Não se sabe quem fez a denúncia, mas chegou ao conhecimento da paróquia regional que Adelaide atraia as crianças para sua casa com o intuito de coletar seu sangue, lágrimas e cabelo para a realização de “bruxaria”s.

O destino de Adelaide nós já supomos qual foi.

Como pudemos ver, as acusações de “bruxaria” movidas a essas mulheres ocorreram por motivos que nada tinham a ver com o que podemos denominar “bruxaria”.

Hand sticking pins or needles in a voodoo doll

Mulheres que sofriam essas acusações normalmente eram lavadeiras de mortos, curandeiras, parteiras ou adivinhas, típicas profissões femininas da época, mas de pouco prestigio.

Mas há casos em que a Igreja parece não ter agido apenas por motivos políticos ou particulares.

Em 1750 um juiz assinou a sentença em que acusava uma escrava paulistana, chamada Páscoa, de “bruxaria”. Segundo o Santo Ofício, ela utilizava fios de cabelo, pedaços de unhas e até mesmo fezes humanas não apenas para fazer feitiços de amarração, benzimento ou cura, mas para matar. Consta dos autos que Páscoa fizera um pacto com o diabo e fora responsável pela morte de cinco pessoas.

Em 30 de julho daquele ano o caso foi encaminhado à Inquisição, em Portugal, porém o paradeiro de Páscoa até hoje é desconhecido.

Foram descobertos processos nos arquivos das arquidioceses relatando que entre os anos de 1749 e 1771 nove mulheres e quatro homens foram acusados de “bruxaria” ou feitiçaria em São Paulo, nesses registros consta o nome de Páscoa.

Em Portugal a sentença mais comum imposta a quem fosse acusado de “bruxaria” era o exílio no Brasil, de forma que o país ficou repleto de benzedeiras e milagreiras e, cá entre nós, essas práticas estão distantes de serem consideradas obras do demônio.

Como sempre aconteceu, as práticas mais abomináveis promovidas pela Igreja foram justificadas como sendo formas de liquidar todo tipo de pensamento contrário aos seus dogmas, pelo bem da humanidade, salvação da alma e em nome de Deus, mas no fundo atendiam a interesses bem menos nobres, principalmente quando estavam em jogo a riqueza e o poder.

Teriam essas mulheres sido queimadas vivas se fossem nobres damas da sociedade?

Ainda que suas práticas fossem contrárias aos preceitos cristãos, teriam sido acusadas de “bruxaria” caso não tivessem incomodado alguma pessoa influente dentro da Igreja?

Hipocrisia e interesse, assim como a ignorância, não são males inerentes aos tempos atuais, eles existem desde o início da civilização.

O próprio saber feminino, no passado, era visto como “bruxaria”, por mais absurda a ideia nos seja atualmente.

Mas esqueça a imagem da velha feia, com verruga no nariz, chapéu pontudo e vassoura, você pode conviver diariamente com uma bruxa moderna sem ter a menor noção disso.

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Essas bruxas modernas costumam ser adeptas do Wicca, a ramificação da “bruxaria” que atualmente possui o maior número de adeptos no mundo, e no Brasil.

Criada pelo antropólogo Gerald Gardner no final de 1950, a Wicca foi reconhecida como religião em 1986 e se baseia em antigas crenças e rituais pagãos.

Como a “bruxaria” de um modo geral não é uma religião fundada em uma estrutura dogmática rígida, os grupos que praticam “bruxaria” (covens e coventículos) se expandiram pelo mundo afora graças à Internet, onde é possível estudar suas práticas e dogmas sem que se integre um grupo específico, o que possibilita a criação de pequenos covens, com conceitos e práticas próprios.

Hoje ninguém mais é levado à fogueira por seguir a Wicca ou alguma outra ramificação menos conhecida da “bruxaria”, mas ainda há muito preconceito em relação a diversas religiões.

No Brasil, por exemplo, as de origem africana ainda são muito discriminadas devido aos seus rituais, principalmente pelas igrejas pentecostais.

Se na época em que mulheres como Mima, Adelaide, Ursulina e Páscoa foram acusadas de “bruxaria” ligá-las ao satanismo já era simples fruto de ignorância e, consequentemente, preconceito, o que dizer dos dias de hoje?

Na próxima semana:

igreja nossa senhora das dores

vamos conhecer locais assombrados espalhados pelo mundo, especialmente no Brasil.

Novidade:

Apresento a vocês a terceira chamada da nossa WebTV. O vídeo, neste caso, é focado em terror. Vamos mostrar o que é fato e o que é mito, especialmente em locais macabros da cidade de São Paulo.

Arquivo do Horror, toda quarta-feira, às 20h, no BDI.

@oscarmendesf / Site oficial do autor

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