Os pequenos candidatos na pauta do povo

Pela primeira vez na história do país, os menores partidos alcançaram patamares parecidos com os grandes.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A eleição de 2014 foi, sem dúvida, uma das mais apertadas da história. E, embora a polarização PT versus PSDB tenha dominado novamente as urnas, nunca se viu, por exemplo, pequenos candidatos virando pauta de grandes mídias. Não por interesse delas, mas por puro rendimento às repercussões das mídias sociais.

O que é possível ressaltar, porém, é como eles apareceram. Houve uma substituição de valores em que temas primários na lista de interesses da população deram lugar a assuntos de grande importância, também, mas não prioritários. Por exemplo, educação, saúde e segurança pública foram deixados de lado em prol de pautas sociais, como legalização da maconha e casamento gay, que não foram abordados com tanta frequência. Como esses pequenos candidatos contribuíram para isso?

A briga por um espaço na mídia

Somente sete candidatos participaram dos debates / Foto: Divulgação - TV Globo
Somente sete candidatos participaram dos debates / Foto: Divulgação – TV Globo

O TSE reconhece 32 partidos legítimos no Brasil, desses, 11 lançaram presidenciáveis neste ano. Nas urnas, apenas três abocanharam aproximadamente 95% dos votos válidos. Os demais, somados, receberam os outros 5%. Tamanha diferença pode ser justificada, entre outras coisas, pela desigualdade entre as campanhas. As menores siglas não recebem tempo e apoio parecidos das grandes potências partidárias. Para efeito de comparação, Dilma Roussef (PT) em uma união entre nove associações, alcançou um tempo de 11 minutos e 26 segundos na televisão. Por outro lado, lideranças como Mauro Iasi (PCB) e José Maria Eymael (PSDC) tiveram direito a somente 45 segundos, sem direito a participação nos debates. Os debates, inclusive, foram ponto de alavanque de outros políticos até então desconhecidos do eleitor. Os eventos promovidos pelas emissoras de TV, com a exceção do apresentado pela TV Aparecida, que convidou Eymael, contaram com a presença de Dilma Roussef (PT), Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (PSB), Luciana Genro (PSOL), Levy Fidelix (PRTB), Pastor Everaldo (PSC) e Eduardo Jorge (PV), dois a mais em relação às eleições de 2010, quando Dilma, José Serra, Marina e Plínio de Arruda Sampaio foram os únicos convidados. Este último foi o primeiro a se tornar um meme nas redes sociais. Com humor irreverente, Sampaio fez sucesso no Twitter e ganhou a simpatia de milhões de fãs, resultado que não foi essencial nas urnas. Assim como Jorge, que neste ano foi o sucesso do primeiro programa realizado pela Band, e parece que já apostava nisso antes da eleição “Vamos participar de todos os debates. Por lei, temos direito.”, disse quando perguntado em agosto sobre o pouco tempo no horário político. Abusando de ironias e trocadilhos, ele foi comparado ao próprio candidato do PSOL há quatro anos e também virou uma febre entre os eleitores intenautas. Vinicius Cava, estudante, 20, confessa que o lado engraçado o ajudou na escolha do candidato “Estava meio confuso em quem destinar o meu voto e assistindo alguns debates, Eduardo Jorge atraiu a minha atenção pelo modo de se expressar, tratando assuntos com um ar de comicidade, porém mostrando transparência e lealdade. Posteriormente, procurei sobre suas propostas e pude ter a certeza do meu voto”, afirmou. De fato, o médico sanitarista não fôra encarado como a solução do Brasil pela maioria. Por muitas vezes, o bom humor apresentado fez com que os eleitores o confundissem com um “palhaço”, o que o tornou um candidato folclórico. A situação prova que, pela primeira vez, pelo menos em uma eleição, as redes sociais pautaram as grandes mídias, que não têm interesse em mostrar quem são esses políticos. Todavia, acabam se rendendo para não ficar atrás das demais que deram espaço a eles depois do alvoroço.

Posteriormente, Luciana Genro engrandeceu-se pelo tom duro e extremamente crítico nas discussões com outros candidatos. A firmeza na voz e a defesa de causas como casamento gay, legalização do aborto e da maconha fez com que ela ganhasse pontos, especialmente com a juventude, seu público maior. Sobrou até para a Rede Globo. “A Globo queria fazer um debate com os grandes (Aécio, Dilma e Marina) e um outro só conosco, os pequenos, às duas da manhã. Felizmente não conseguiram”, disse Luciana logo nas considerações iniciais do programa produzido pela emissora carioca.

Saiba mais:
Luciana Genro conseguiu dobrar o valor arrecadado na campanha de seu partido em relação às últimas eleições. Até setembro, ela conseguiu R$ 213 mil, contra R$ 109 mil em 2010; 11% das doações foram pela web.

A gaúcha protagonizou também um dos momentos mais polêmicos da campanha. Ao lado de Levy, entraram em uma discussão sobre união de pessoas do mesmo sexo. “Dois iguais não fazem filho, e aparelho excretor não reproduz”, declarou o presidente do PRTB. Fidelix ainda disse que o apoio à união entre pessoas do mesmo sexo poderia levar a uma redução drástica no número da população brasileira.

Levy e Luciana Genro se tornaram protagonistas nos debates / Foto: Divulgação - TV Globo
Levy e Luciana Genro se tornaram protagonistas nos debates / Foto: Divulgação – TV Globo

A resposta causou enorme repercussão na internet. Levy entrou nos assuntos mais discutidos do mundo no Twitter. Pessoas defendiam e atacavam o candidato com o mesmo empenho, umas o acusando de preconceituoso e outras defendendo que apenas fôra dita a verdade. A diferença deles para os grandes é a forma objetiva de expressar uma opinião. O famoso “empurrão com a barriga” para não desagradar X ou Y, em regra, não faz parte do político de uma sigla menor. Faz-se necessária maior clareza possível para conseguir apoio de uma parcela mais expressiva da população comparado aos demais nas mesmas condições, especialmente em temas que mexem tanto com a sociedade, como legalização da maconha e casamento gay. Por isso, a contribuição deles foi crucial para a substituição de quesitos básicos e urgentes na situação do país durante as discussões nos debates, além, obviamente, da corrupção, que também foi pauta constante, inclusive entre os favoritos. O fato é que os “nanicos” acima citados, banhados em polêmicas ganharam o espaço de Pastor Everaldo, que era até então a quarta força na eleição, chegando a aparecer com 4% das intenções de voto, mas após os debates, perdeu força e não passou de 1% no resultado final.

Everaldo foi um dos quatro selecionáveis que concedeu entrevista no “Jornal Nacional”, mas ficava claramente nervoso em frente as câmeras. Não conseguia argumentar com os demais sem se atrapalhar nas respostas. Por isso, após a morte de Eduardo Campos e Marina assumindo a frente da chapa, a maioria dos votos dos evangélicos foram migrados para ela, que é da mesma religião. Foi o caso de Lucas Ramalho, bancário, 26, que é cristão protestante e não conseguiu confiar na palavra do religioso “Mesmo sabendo que ele tem a mesma fé que eu tenho, eu não sei se Pastor Everaldo seria uma pessoa séria, e me pareceu muito despreparado para ser presidente de um país“, afirmou.

A briga por cada voto e como consegui-lo 

Foto: Romerito Pontes
Zé Maria pouco cresceu em comparação às últimas eleições / Foto: Romerito Pontes

A extrema esquerda, com exceção de Luciana, pouco apareceu. Mauro Iasi, Rui Costa Pimenta e Zé Maria, somados, chegaram ao número de 150 mil votos, o que representa apenas 0,15% dos eleitores. Eles não participaram dos debates e tinham tempo extremamente reduzido na televisão, podendo se apoiar somente nas plataformas virtuais. Mas, sem a televisão, sem poder expor os pensamentos para milhões de pessoas, como ganhar notoriedade na rede? Eymael sofreu da mesma forma. Acostumado a disputar as eleições, ele teve um desempenho ainda abaixo de 2010, quando ficou em 5º lugar com 90 mil votos. Neste ano, caiu para 61 mil. Já o jornalista Fidelix, recebera 58 mil em 2010 e quatro anos depois, participando e opinando polemicamente nos debates, subiu para 447 mil, representando um considerável aumento de 770%. Sobre este assunto, o comentarista político programa “Gente que Fala”, da Rádio Trianon – SP e por muitos anos colunista de televisão do jornal “O Estado de SP”, James Akel, afirma que, assim como os outros, o homem famoso por defender a construção do aerotrem no país, representou uma classe específica na eleição. “Levy Fidelix teve aumento de 700% em votação por mostrar projetos executáveis, coerentes e ter uma postura conservadora em relação a assuntos polêmicos. A tv fez com que ele fosse representante destes conservadores que são a classe média de toda sociedade capitalista“, declarou.

Genro, que também crescera assustadoramente no decorrer da campanha, se apoiou no poder das mídias, além das redes sociais e da já famosa militância esquerdista para tal resultado. “O PSOL tem participação garantida em todos os debates marcados. Acreditamos que a presença nos debates torna conhecida a candidatura. Estamos com muita mobilização de rua e nas redes sociais para diminuir a enorme discrepância em termos de tempo de televisão no horário eleitoral gratuito e na cobertura da imprensa, absolutamente antidemocráticos”, relatou. Para Zé Maria, que concorreu pela quarta vez neste ano, a única plataforma foi a rede. “Na verdade, num país de dimensões continentais como o Brasil, com mais de 200 milhões de habitantes, não há outro meio para levar a proposta do partido, ou mesmo dar conhecimento da existência da candidatura, se não for através da TV. O que ocorre nas eleições em nosso país é que o poder econômico controla o processo e decide quem concorre para ganhar e quem apenas consta no registro do TSE. Eles fazem isso de duas formas. Primeiro, irrigando com centenas de milhões de reais (dinheiro que, agora com o escândalo da Petrobras estamos vendo de onde vem…) as candidaturas que defendem os interesses dos bancos e grandes empresas – como fizeram com a candidatura da Dilma, mas também a de Aécio Neves. Em segundo lugar com o controle que tem da TV (mesmo o tempo que o Estado destina aos partidos é distribuído de forma completamente desigual como se viu na recente campanha). Desta forma grande parte da população é induzida a votar em um dos candidatos escolhidos pelo grande capital, os que aparecem na TV e tem dinheiro para massificar a campanha pelo país”, indagou.

Saiba mais:
* PCB, PSTU e PCO nunca participaram de debates com candidatos à Presidência da República. A lei dispensa as emissoras da obrigação de convidar partidos sem representação na Câmara.

Domínio histórico

Os três presidenciáveis de sucesso na parte de baixo da campanha não fizeram frente aos de cima nas urnas. Todos, somados, não chegaram sequer a 1/4 da votação de Marina Silva, que ainda ficou atrás de Dilma e Aécio. Portanto, as pessoas até simpatizam com candidatos fora do “trio”, mas preferem votar nos costumeiros por puro repúdio ao representante daquele partido que ele não vota de forma alguma. Por exemplo, muita gente vota em Aécio (que seria o único “capaz” de vencer a Dilma) por não gostar da forma administrativa do PT, e vice-versa. Isso faz com que o candidato de preferência fique em segundo plano, provando a importância e a extrema influência das pesquisas realizadas pelos institutos. A ex-ministra do meio-ambiente ganhou status de renovadora e por algum tempo chegou a aparecer à frente da atual presidente nas intenções de voto. Depois, caiu e não foi nem ao segundo turno. Os fatores acima demonstram como a polarização das duas maiores siglas do país acabam se mantendo, por bem, ou por mal.

Para 2018

Eduardo Jorge foi o candidato cômico de 2014 / Foto: Divulgação - TV Bandeirantes
Eduardo Jorge foi o candidato cômico de 2014 / Foto: Divulgação – TV Bandeirantes

O ano de 2014 trouxe três personalidade políticas para o país, mas a dúvida que fica é: como não cair no esquecimento? É extremamente difícil para qualquer pessoa, independente do ramo, manter-se na mídia. Com os políticos não é diferente. O próprio caso de Plínio de Arruda Sampaio, que fôra sucesso em 2010 e morreu já esquecido pela maioria do público prova isso. Como voltar ainda mais forte em 2018 disputando a eleição por uma sigla sem tradição?

As opiniões controversas podem causar retaliação ao partido no qual o político represente por muito tempo. No caso de Levy Fidelix, presidente do PRTB, fica mais evidente que uma parte da população, mais liberal, o rejeitará. Porém, ele ganha pontos com a ala mais conservadora e deve voltar em 2018. Luciana segue uma tradição de boa votação do PSOL que dura três eleições, com Heloísa Helena, em 2006, Plínio, em 2010, e agora com a gaúcha. Trata-se de um caso inverso ao de Levy, a parte que o apoia, a evita, e a que o evita, a apoia. Os demais socialistas devem voltar com os mesmos representantes, buscando sempre maior espaço na imprensa e alguma forma de mostrar suas propostas para o público. Eduardo Jorge veio pressionado após disputar as eleições pelo Partido Verde, que teve Marina em 2010. Não conseguiu manter a expressiva votação, porém chegou perto na popularidade e pode voltar em quatro anos, desde que consiga se manter até lá. Pastor Everaldo representa uma sigla cristã, que deve procurar outro candidato ou se apoiar em alguma plataforma de governo, preferencialmente conservadora.

A mídia brasileira passa por uma transformação ingrata (para si própria), em que, embora ainda tenha enorme papel no que é discutido no cotidiano do espectador, se rende obrigatoriamente ao que ele pauta para o veículo. Nunca foi tão clara essa transformação como nas eleições de 2014. As pages no Facebook, páginas no Twitter e perfis no Instagram começaram a fazer parte das campanhas de maneira tão efetiva quanto as propagandas políticas obrigatórias. E a tendência é que em 2018 elas se tornem mais importantes do que qualquer outro meio de divulgação, podendo mudar o rumo da política nacional. Quem tiver melhor marketing em mídias pode causar grandes transtornos dentro dos costumeiros resultados eletivos. Quem viver, verá.

@LucasCanosa – BDI

Mande seu e-mail para Lucas Canosa : lucascanosa@bastidoresdainformacao.com.br

Deixe uma resposta