Os mistérios do Casarão Afonso Sardinha

 Depois da história dos bonecos malditos…

arquivo do horror 

São Paulo tem muitos locais famosos pela fama de serem assombrados, como o Edifício Joelma, o Castelinho da Rua Apa, o Teatro Municipal, entre outros. 

Mas existem muitos que não são mencionados em páginas “especializadas”, por descaso ou apenas por se ignorar a existência deles. 

Um desses lugares é o Casarão Afonso Sardinha, localizado no Parque Estadual do Jaraguá, em São Paulo, conhecido por ser uma edificação histórica, mas que também apresenta grande atividade paranormal. 

Já escrevi sobre ele no aqui BDI, de uma forma bastante resumida, quando tratei de lugares assombrados do Brasil, mas há muito mais a ser dito sobre esse casarão. 

Existe um texto meu sobre o assunto em outras páginas, mas não tão completo quanto esse, que conta com um novo relato que me foi enviado por um rapaz que leu a matéria e quis contribuir com o meu trabalho. 

Embora pouca gente tenha conhecimento das manifestações sinistras que ocorrem no casarão, por esses fatos não serem divulgados, muitas pessoas testemunharam acontecimentos estranhos tanto no próprio casarão como nos seus arredores. 

Como fica próximo da minha casa, já há muito tempo queria escrever sobre ele, colocando-o, merecidamente, no hall dos lugares assombrados da capital paulista. 

Tudo poderia não passar de uma lenda urbana ou de histórias sem fundamento, como tantas outras, mas quando decidi pesquisar sobre o casarão e consegui alguns depoimentos sobre ele me dei conta de que as histórias são assustadoramente verídicas. 

Mas antes de entrar nas manifestações sobrenaturais propriamente ditas, gostaria de falar um pouco sobre a história do casarão, quem o construiu, o bandeirante Afonso Sardinha, e também sobre o Parque Estadual do Jaraguá que o abriga, para que se possa entender um pouco melhor o caso. 

 Quem foi Afonso Sardinha? 

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 Afonso Sardinha (o velho), de origem portuguesa, foi um bandeirante conhecido como caçador de índios e traficante, sendo um dos primeiros a comprar escravos em Angola e trazê-los ao Brasil. Foi uma figura muito importante e influente em sua época, recebendo o título de Capitão das Gentes da Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga. Sardinha descobriu vestígios de ouro no ribeirão Itaí, que fica no Pico do Jaraguá, por volta de 1580 e com isso resolveu se estabelecer na região, fundando a Fazenda Jaraguá. Nela ele construiu uma sede, o casarão que hoje leva seu nome, e nele viveu até o seu falecimento, em 1616. 

Para não me prolongar na biografia de Sardinha irei resumir sua história com uma descrição interessante que foi feita sobre ele pelo historiador Afonso de Taunay: 

Grande comerciante e capitalista, grande proprietário e lavrador, minerava no Jaraguá, fabricava e exportava muita marmelada, a ponto de poder fornecer, de uma remessa, cem caixotes, e negociava grandes partidas de farinha, sal e açúcar. De Buenos Aires recebia lãs e peles remetidas pelo correspondente Antônio Rodrigues de Barros. Oito peles vendera em São Paulo por 26 cruzados:10$000. Traficava escravos, vendendo índios moços a 3$000 por cabeça, até para o Rio da Prata. De lá encomendava diversos gêneros, como rendas, papel, medicamentos, facas fabricadas na Alemanha. Como capitalista, emprestava a pessoas de São Paulo e Santos, São Vicente e Rio de Janeiro”

O casarão e a senzala

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No sopé do Pico do Jaraguá o casarão foi construído, por volta de 1580, para servir de sede à Fazenda Jaraguá. Possui vinte e um cômodos e era residência do bandeirante Afonso Sardinha, o pai, que ali viveu até seu falecimento, em 1616 (como já foi dito). 

 A construção possui um cômodo na parte inferior utilizado para acomodar os escravos, um tipo de senzala, com altura de 1,60m e apenas pequenas janelas para ventilação. 

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Por que uma senzala? Como se sabe, Sardinha era inimigo dos indígenas locais e traficava escravos para o Brasil. Obviamente ela serviu para o cárcere ou mesmo abrigo de nativos e negros escravizados. 

Um fato curiosamente bizarro em relação ao casarão é o material com o qual foi construído: taipa de pilão. Porém, para conferir maior resistência ao material, foram adicionados sangue e vísceras animais à massa de folhas secas e barro, para aumentar a aglutinação e assim fortalecer o material. 

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Ao contrário do que se pode imaginar, a vida na fazenda estava longe de ser tranquila. 

Alguns povos indígenas como os Carijós, que viviam na região, não adentravam o território onde está o Pico do Jaraguá (chamado por eles de “Iaraguá”) por considerá-lo sagrado, assim como não permitiam que outras pessoas o fizessem. A invasão da área pelos portugueses despertou a fúria dos nativos. 

Durante dez anos foram travadas diversas guerras pela região, em que os indígenas, Carijós e Guaranis, incapazes de fazerem frente ao poderio bélico dos portugueses, foram praticamente exterminados. Interessante que isso seja lembrado mais adiante.  

Com o esgotamento do minério, a região foi tomada por enormes fazendas de café e muitos anos depois, em 1939, o governo do Estado de São Paulo comprou 202 alqueires da região. As fazendas cafeeiras foram desativadas e vegetação nativa foi replantada. 

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Em 1961 foi inaugurado, então, o Parque Estadual do Jaraguá, onde o casarão se localiza. 

Em 1978 o Conselho Estadual do Patrimônio Histórico formalizou o tombamento de toda a área e em 1994 o Jaraguá foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, na qualidade de Reserva da Biosfera, quando o casarão, ao menos, passou a ser protegido. 

Durante vinte anos o casarão abrigou o albergue Magdalena Tagliaferro Hostel, que foi desativado em 2008, servindo de moradia temporária aos jovens de todo o mundo. 

Com a desativação do albergue o casarão foi então fechado para a visitação pública, sendo cuidado por dona Iracema, que cumpria com o papel de caseira, até 2012, quando foi obrigada a retirar-se dele. 

Com o Decreto Estadual n° 57.401, de 06 de outubro de 2011, a Fundação Florestal (que administra o parque) foi autorizada a criar parcerias para sua utilização, incluindo o casarão. 

A licitação já foi feita, mas ainda se desconhece que destino será dado a ele ou ao parque. 

Nos arredores do casarão

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 No Pico do Jaraguá, ponto mais alto da cidade de São Paulo, foram instaladas duas importantes antenas de transmissão.  

Pouca gente sabe, mas Pico do Jaraguá é o nome dado ao ponto maior (com 1.135 metros), onde em 1962 foi instalada a rede de transmissão da Rede Bandeirantes, e o menor (com 1,127 metros) se chama Pico do Papagaio, onde em 1969 foi construída a antena da TV Cultura. 

Recentemente ocorreram alguns acidentes na região do parque que abriga o casarão, além de numerosos incêndios na mata. Incêndios esses ocasionados por motivos diversos, alguns deles sem explicação. 

 Atividades paranormais

Existem diversos relatos dizendo que tanto no casarão como nos seus arredores há atividades sobrenaturais. Foi difícil, mas consegui obter o testemunho de algumas pessoas que aceitaram colaborar, desde que a identidade não fosse revelada. 

Quem já passou a noite na centenária edificação diz que é possível ouvir sons como os de correntes sendo arrastadas, estrondos pelas paredes e vultos perambulando por seus cômodos. 

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Não tem explicação, mas em algumas noites as almas penadas pareciam ficar doidas, e era impossível dormir quando isso acontecia. Eram gritos, estrondos pra tudo que era lado, era terrível. Mas era difícil disso acontecer, na maioria das noites era tudo tranquilo.” 

Uma vez veio uma prima minha do interior aqui pra capital e ia ficar em casa durante um tempo. Mas ela só passou uma noite no casarão e quis ir pra casa de uma tia dela. Ela disse que, de noite, sentia alguma coisa mexendo nos cabelos delas e alisando as pernas dela. Nunca mais voltou aqui. Mas comigo essas coisas nunca aconteceram não.” 

Sou bastante religiosa, sempre rezo antes de dormir e tenho sempre um cantinho para meus santinhos. Ainda sou do tempo que se seguia a quaresma, todas as tradições católicas. Acho que isso também me ajudava a acalmar as almas penadas, as orações.” – confidenciou I.B., que morou no casarão durante algum tempo. 

Quem visitou o local também teve más impressões a respeito dele. 

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Uma vez teve uma visita da escola ao casarão. Tinha guia e tudo o mais, foi bem organizado. Todos os aposentos nos foram mostrados, mas quando chegou a hora de conhecer a senzala, foi complicado. Eu entrei nela, baixinha, abafada… Senti uma sensação horrível, como se desse pra sentir o sofrimento de quem esteve preso nela. Foi horrível mesmo.” – relatou C.M.P. 

 Os seguranças que fazem a ronda noturna pelo parque evitam passar por perto do casarão alegando que já viram vultos circulando por suas dependências, além de ouvirem risadas e lamentos vindos do seu interior. 

 “A ronda tem que ser feita por toda a área do parque, e não dá pra deixar de passar perto do casarão, mas ele dá arrepios. Não gosto de passar perto dele, teve uma vez que eu estava fazendo a ronda e tive a impressão de que tinha alguém se esgueirando pelas esquinas do casarão, me acompanhando. Chamei um companheiro pelo rádio e circulamos em volta dele todo, mas não tinha ninguém.” – disse W.M.A.  

Teve uma noite em que chamamos a polícia para averiguar uma invasão do casarão. Eu e mais dois vigilantes tínhamos certeza de que tinha um bando de gente dentro dele. A polícia veio, a gente teve que destrancar a porta para eles entrarem, e o lugar tava vazio.” – relatou A.A.P. 

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Na aldeia indígena próxima ao parque, onde ainda hoje se encontram as pias utilizadas para lavagem do ouro na época, também há relatos de manifestações estranhas. 

 “Aqui na aldeia tem um monte de cachorro. O pessoal abandona os bichos aqui e acabamos ficando com eles, então tem um monte. Toda noite, lá pelas duas da madrugada, não sei o que dá neles, mas vira uma bagunça danada aqui. Eles latem, ganem, uivam, sempre nesse horário. Algumas vezes pensei que fosse alguém que passasse na estrada e mexesse com eles, e uma vez eu saí pra ver. Não tinha ninguém, é como se a cachorrada latisse pra alguma coisa que só eles conseguem ver.” – relatou J.F. 

 “Logo que viemos morar no Jaraguá nós nem casa tínhamos ainda. A gente morava em uma oca, mas como esfriava muito de noite a gente pendurava cobertores para não entrar vento. Uma vez veio uma conhecida nossa, de outra aldeia, pra passar um tempo com a gente e disse que toda noite ela ouvia o som de correntes se arrastando na direção das “pias de ouro”. – contou C.A.M. 

O próximo relato é inédito e me foi enviado por um antigo mochileiro que se hospedou no casarão quando nele ainda funcionava o albergue: 

 “Obviamente já me hospedei em diversos outros albergues, em toda cidade há um, mas em nenhum outro as noites foram tão perturbadoras quanto as em que passei ali. 

 Nunca vi nenhum fantasma, nem nada do tipo, mas durante todo o tempo em que fiquei nele me senti observado, como se sempre tivesse alguém se esgueirando pelos cantos. Em determinados momentos tive a sensação de sentir uma pesada respiração no meu cangote. 

Principalmente de noite, na hora de dormir, aquela sensação de que a qualquer momento alguma coisa poderia me agarrar era perturbadora. E não era apenas uma impressão minha, outros caras que estavam lá comigo se queixavam da mesma coisa.” 

 Ele me enviou esse relato por e-mail após ler essa matéria que escrevi para uma outra página, publicada há um bom tempo. 

 Mas por que o casarão e a região do parque seriam assombrados? 

Espíritos pouco elevados e que, por algum motivo em particular, não estejam dispostos ou aptos a seguirem para o mundo espiritual acabam presos a um determinado local, geralmente onde ocorreu sua morte física. Não que isso signifique necessariamente que sejam maus, muitas vezes simplesmente não possuem o conhecimento necessário ou não recebem a ajuda esperada para seguirem adiante, estão perdidos aqui no plano físico. 

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 A quantidade de indígenas e negros que morreram em circunstâncias violentas na região do Pico do Jaraguá foi enorme. Afonso Sardinha e seus capatazes guerrearam com os Carijós e Guaranis pela posse das terras durante dez anos, até que finalmente saíram vitoriosos. Podemos então calcular a quantidade de vidas que foram ali perdidas. Os nativos, pela própria cultura deles, costumavam sepultar seus mortos na própria aldeia, em suas terras, os conhecidos “cemitérios indígenas”, para que servissem como guardiões. Sendo que as terras do Jaraguá eram deles, e sobretudo um local sagrado, podem ter sido ali sepultados. Isso se torna possível ao analisarmos a cultura dos indígenas, porém, não existe registro algum que possa confirmar isso. 

 Após o início da extração do ouro na então Fazenda Jaraguá foram trazidos escravos africanos para realizar a mineração, e não é difícil presumir o nível de crueldade que deve ter sido praticado para com eles. Sardinha foi um dos pioneiros no tráfico humano para o Brasil e, obviamente, os casos em que os maus tratos levavam os escravos ao óbito não deviam ser raros. Possivelmente esses mortos deveriam ser enterrados nas proximidades da fazenda porque, por serem escravos, não eram enterrados nos cemitérios reservados à população. 

 Todos esses fatos seriam mais que suficientes para justificar presenças paranormais no casarão e em seus arredores, porém, tem mais. 

 Acidentes ocorridos bem mais recentemente, e que são lembrados somente pelos antigos moradores do bairro, reforçam o ideia de que os relatos sobrenaturais são verídicos. 

 Na década de 70, enquanto as duas antenas de transmissão era construídas, diversos operários morreram em inúmeros acidentes. O Pico do Jaraguá quase não possuía urbanização, era bastante íngreme e o maquinário utilizado era pouco adaptado a essas condições. Tudo isso culminou para que diversos acidentes acontecessem. 

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 Não consta registro algum na internet, mas na década de 80 houve um incêndio na antena menor do Pico do Jaraguá. Nesse incêndio várias pessoas morreram, inclusive bombeiros, que tiveram o trabalho bastante dificultado pelo difícil acesso ao local. O caso foi bastante noticiado na época, mas só consegui obter informações a respeito com antigos moradores do bairro. 

 Como foi possível constatar, não faltam motivos para que existam espíritos perambulando pelo local, mas há um pequeno detalhe que não pode ser esquecido: o material com o qual o casarão foi construído, a taipa de pilão. 

 Os construtores, conforme já foi mencionado, adicionavam sangue e vísceras de animais à massa de barro e folhas secas com o intuito de tornar o material mais resistente. 

 Não é segredo para ninguém, mas os “colonizadores” não nutriam respeito algum pelos indígenas ou pelos negros, tratando-os como criaturas inferiores, animais, e não duvido nada de que vísceras humanas também tenham sido adicionadas à argamassa. Em lugar algum isso é mencionado, mas diante da realidade da época não é de se duvidar que tenha sido realizada essa bizarra prática. 

 E, se já não bastasse o fato de o casarão ser uma das poucas edificações presentes no parque, o que por si já o torna um ímã para espíritos que vagam pela região, a presença desse tipo de material orgânico em sua fundação acabou tornando-o ainda mais propício para manifestações. 

 Qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento acerca de ocultismo sabe que tanto o sangue quanto os próprios animais são sacrificados em nome de entidades e espíritos seja como forma de agradá-los, ou como pagamento por algum pedido atendido. 

Porém, fica difícil dizer se esse material orgânico, após tantos anos, ainda possa exercer alguma influência sobre a edificação. Talvez os espíritos que tenham sido atraídos até o casarão, assim que foi construído, permaneçam a ele ligados por algum motivo obscuro. 

 Práticas relacionadas à bruxaria eram comuns na Europa, principalmente naquela época, mas fortemente combatidas pela Igreja através do Tribunal da Santa Inquisição. 

 Quem pode garantir que Afonso Sardinha ou alguns dos homens que viviam na região não tenham se dedicado a essas práticas, estando isolados aqui no “fim do mundo”, longe dos olhos do clero? 

 Embora não passem de meras hipóteses esses fatores devem ser considerados, principalmente diante dos fenômenos que ocorrem no local. 

 Tentei entrar em contato com a administração do parque e solicitar permissão para passar uma noite no casarão e, talvez, presenciar alguma coisa, mas não obtive nenhuma resposta. 

 De qualquer forma, diante de tudo o que pude apurar, sou obrigado a concluir que são verídicas as histórias sobre os fantasmas que assombram o local. 

Conclusão: o Casarão Afonso Sardinha merece constar na relação dos lugares mais assombrados da cidade de São Paulo. 

 Se duvida, tente passar uma noite nele e depois me diga como foi a experiência. 

* São Cipriano: Bruxo ou Santo? Na próxima semana vamos conhecer a resposta!

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  Arquivo do Horror, toda quarta-feira, às 20h, no BDI.

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