Orlando Duarte: A perda de um grande conhecedor do futebol

Rogério Baptistini

O verbo transitivo conhecer significa, entre outras possibilidades, perceber e incorporar à memória. Também diz respeito à aquisição de informações sobre algo. O substantivo masculino conhecimento, por sua vez, se aplica à experiência, ao preparo da pessoa que o possui.

Na história do pensamento, os jardins de Academia, adquiridos por Platão no século no século IV a.C. se tornaram um lugar de culto ao conhecimento. Embora não se registre um currículo especial nas reuniões havidas entre o círculo do filósofo grego, há indicações de que seriam discutidos temas filosóficos e a matemática, num grupo dividido entre seniores e juniores e que, provavelmente, contava com duas mulheres: Asioteia de Flios e Lastênia de Mantineia. Dois bons livros para os interessados no assuntos são The Cambridge Companion to Plato, organizado por Richard Kraut (1992), e Women in the Academy, de C. D. C. Reeve (2001).

Enciclopédia é uma palavra cuja raiz é grega. Significava, na origem, algo como educação circular. Na história moderna, o termo foi associado à ideia de uma obra que contém informações sobre todos os ramos do saber. E enciclopédico seria o conhecimento que abrange tudo, generalista, conforme ensinam os dicionários.

Talvez tenham sido os iluministas que, no mundo moderno, tenham feito a junção de conhecimento e enciclopédia como caminho para o desenvolvimento da humanidade em direção à luz, donde a sua associação com o ensino público universal e com a academia. É sabido que a criação da Encyclopédie se deve à Diderot e d’Alambert, no século XVIII, que produziram uma obra em 28 volumes e com mais de 70 mil artigos, muitos deles escritos por pensadores ilustres como Voltaire e Rousseau, por exemplo.

Uma enciclopédia não generalista, sobre um assunto específico, foi confeccionada pelo filósofo alemão George Wilhem Hegel. A sua Enciclopédia das Ciências Filosóficas, de 1830, define a noção da obra como uma apresentação sistematizada de uma ciência ou de um conjunto de ciências ou conhecimentos especializados. Sem certeza e precisão, é possível apontá-la como o modelo para as publicações contemporâneas sobre temas determinados.

O Brasil nos nossos tempos parece avesso ao conhecimento, aos saberes especializados e, sobretudo, à academia. Os últimos anos, se compilados, ensejariam a criação de uma enciclopédia dos horrores. Algo como a demonstração de como a vida em sociedade pode degenerar em sofrimento, violência e formas variadas de intolerância e desrespeito mútuo. E a pandemia parece agravar o estado coisas, ceifando a vida de centenas de milhares, inclusive da personagem deste artigo, Orlando Duarte, “A Enciclopédia”.

Natural de Rancharia, município de menos de 30 mil habitantes localizado no interior do estado de São Paulo, Orlando Duarte fez do jornalismo esportivo o seu mister. Trabalhador incansável, num país de tão poucos leitores como o Brasil da segunda metade do século XX, escreveu 34 livros que abrangem as regras do futebol, as histórias dos grandes clubes de São Paulo, a histórias das Copas do Mundo, memórias e contos, entre outros assuntos. Daí o epíteto que acompanha o seu nome “A Enciclopédia”. Era uma enciclopédia do esporte!

Conhecia o ofício de jornalismo e o exercia com versatilidade, como poucos no seu tempo, anterior às multiplataformas da internet. Esteve presente na imprensa, no rádio e na TV, expondo sempre com didatismo o seu conhecimento enciclopédico. Os meios de comunicação social foram o seu jardim de academia e o esporte a disciplina principal do currículo.

Num tempo em que o país conhecia a sua modernização e empolgava o mundo com o crescimento econômico, com as conquistas na indústria, na arte, na cultura, nos esportes, Orlando Duarte foi um dos grandes, estando presente em 14 edições de copas do mundo na condição de trabalhador da notícia.

A ironia da vida o fez padecer de uma enfermidade que comprometeu a sua memória. O Alzheimer, doença degenerativa crônica que compromete a faculdade de reter ideias, o prendeu em alguma redação do passado, junto da atividade que honrou e do conhecimento que acumulou.

Gradativamente descuidado de si mesmo e alheado do mundo, Orlando Duarte viveu os últimos dias sob os cuidados da esposa, dona Conceição Duarte. Sua morte, na manhã de terça-feira, 15 de dezembro, aos 88 anos, 50 dos quais dedicados à profissão, deixa uma lacuna que dificilmente será preenchida nesses tempos de informações instantâneas, pouca pesquisa e vulgarização – no pior sentido- da atividade jornalística.

Perdemos um grande!

Rogério Baptistini é Sociólogo. Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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