Há 30 anos, nascia a Nova República

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“Senhores, por gentileza. Lamento informar o que excelentíssimo senhor presidente da República, Tancredo de Almeida Neves, faleceu nesta noite, no Instituto do Coração, às 10h23”. A vida pública de Tancredo Neves se confundiu com sonhos e ideais brasileiros de união, de democracia, de justiça social e de liberdade. 

No fim de sua vida, pela vontade do povo e com a liderança de Tancredo Neves, estes ideais se transformaram na Nova República. 

A emocionante corrente de fé e solidariedade das últimas semanas, enquanto o presidente Tancredo Neves lutava pela vida, só fez crescer esse sentimento de união,que foi sempre ação, exemplo e objetivo dele.  

“Com a mesma fé e com a mesma determinação, o Brasil haverá, a partir de agora, de realizar os ideais do líder que acaba de perder, Tancredo Neves”.  

 Antônio Britto, jornalista e assessor de imprensa de Tancredo Neves – 1985. 

Tancredo

 

Talvez milhões de pessoas só lembrem da primeira frase do assessor de imprensa Antônio Britto. Quem não estava assistindo TV soube pelo rádio ou pelos vizinhos. A partir dali, o povo brasileiro chorava e soluçava por perder o carismático homem da democracia. 

Foi assim que entramos na Nova República, há 30 anos.  

Em janeiro, de 1985, Tancredo de Almeida Neves, mineiro, advogado, de oposição, foi eleito pelo Colégio Eleitoral por 489 votos contra  180 de Paulo Maluf, candidato dos militares. Muitos temeram que talvez com o falecimento de Tancredo, o vice José Sarney, não assumisse o cargo.  

Na noite de quinta- feira, 14 de março de 1985, o presidente foi internado às pressas no Hospital de Base de Brasília.  

Foram 38 dias de angustia, esperança e fé acompanhados, passo a passo, pelos brasileiros, na sala de imprensa do Instituto do Coração. Britto passou a ser aquele homem, com expressão séria e sofrida, que era o único, de tão perto , falar do presidente. O Brasil parava para ver ou ouvir o próximo boletim, boletim esse, que a cada dia piorava.  

Em agosto de 1985, Britto, em uma longa entrevista- depoimento para o jornalista Cláudio Cunha, o assessor revela mentiras, ética jornalística, medo e confronto com médicos.  

Após ser convidado oficialmente para ser Secretário de Imprensa, o jornalista ouviu do neto Aécio Neves Cunha, secretário particular do presidente, em tom baixo, que talvez a reunião com o Ministério, prevista para dia 17, dois dias depois da posse, que não haveria. Na noite do evento, dia 11 de março, foi observado por Britto um certo desconforto e irritabilidade de Tancredo, uma situação avessa do que via comumente.  

Mas qual foi a morte, de fato, do presidente Tancredo Neves?  

Foram 7 cirurgias e vários diagnósticos diferentes. Internado no dia 14 de março, o presidente se submeteu a vários exames e uma biópsia, no Hospital de Base. Mas, no dia 19, saiu o laudo que o divertículo, na verdade, era um tumor benigno. O resultado foi passado somente para família e Antônio Britto. Em comum acordo, equipe médica, o jornalista e o filho do presidente, Tancredo Augusto Neves, resolveram que o melhor a fazer é um novo diagnóstico, ou seja, forjar um novo laudo para divulgar.  

O responsável pelo relatório e o falso laudo é o médico patologista Hélcio Luiz Miziara do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal. O patologista acrescenta, ” Nós assumimos total responsabilidade pelo laudo falso, visto que dentro das normas éticas que regem a Sociedade Brasileira de Patologistas, tal procedimento encontra amparo legal porque na maioria das vezes representa uma atitude humanitária”.  O curioso é que a família não tem acesso aos documentos de todo o processo de agonia do presidente, apesar de várias tentativas. 

SUPOSTAS DOENÇAS: 

* apendicite supurada; 

* diverticulite; 

* tumor; 

* hérnia encarcerada (lado esquerdo/inguinal); 

* leiomioma de intestino abcedado 

 Curiosidades do Caso Tancredo Neves:  

HBDF

> Apesar de Tancredo ter se queixado de dores abdominais, o clínico Renault Ribeiro e o cirurgião Francisco Pinheiro Rocha, não diagnosticaram nada no exame de rotina dias antes da posse; 

> Foi orientado a se internar no Hospital de Base de Brasília faltando algumas horas da posse; 

> Com novos exames, os médicos acharam melhor fazer a cirurgia o mais rápido possível em Brasília; 

> A família queria levá-lo para São Paulo em um jato, mas os médicos do presidente se recusaram a acompanhar; 

> A cirurgia foi disputada entre as equipes médicas; 

> A sala do centro cirúrgico teve uma intensa circulação de pessoas não paramentadas e curiosos. Qualquer um poderia asistir a cirurgia do primeiro presidente civil; 

> Aproximadamente 60 pessoas estavam presentes durante a cirurgia; 

> Na hora da foto, a última, médicos convenceram o presidente a sair da UTI para tirar a foto. Não queriam que dr. Tancredo fosse visto em uma cama hospitalar e que a equipe não poderia entrar na UTI para evitar contaminação; 

> Dr. Tancredo tinha dois medicamentos intravenosos, soroterapia e uma dieta parenteral, não é visto na foto, mas os dois medicamentos foram colocados no chão, atrás do sofá.  

 Continua na próxima semana… 

 

Três Poderes, toda quinta-feira, às 13h, no BDI.

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