Entrevista com Sifu Hudson Willian

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Fico honrado em apresentar a entrevista que realizei com um dos maiores nomes do estilo Wing Chun no Brasil: Mestre Hudson Willian.

Nascido em 1980 na cidade de São Paulo, Hudson Willian Sena Vacca, é membro vitalício da International Li Hon Ki Applied Wing Chun Association desde 2008 e o único discípulo (Paai Si) de seu mentor, o mestre Li Hon Ki.

Mestre Hudson é conhecido por sua experiência como lutador, possuindo diversos títulos, e ênfase no treinamento e aplicação do Kung Fu para combate.

Atualmente mantém sua matriz acadêmica, bem como sua clínica de Terapia Tradicional Chinesa na área nobre (Zona Sul) da cidade de Bauru – SP, a qual foi o idealizador e fundador, denominada CEICO – CENTRO INTEGRADO DE CULTURA ORIENTAL LI HON KI mantendo alunos em mais de 12 cidades do Brasil em 5 Estados diferentes, além do Chile e Argentina.

Hudson Willian

Grão-Mestre Li Hon Ki e Mestre Hudson Willian

Confira a entrevista:

– Em poucas palavras, o senhor poderia explicar aos leitores leigos o que é o Wing Chun?

O Wing Chun é um sistema de luta chinês, sendo mais um dos estilos do Kung Fu, o qual tem sua origem no Templo de Shaolin, cujo diferencial é ter sido criado por uma mulher e busca simplificar e aumentar a efetividade no combate, reduzindo o tempo de luta, bem como o tempo para adquirir maestria no domínio dos sistema.

– O sistema, mesmo sendo considerado um dos estilos do Kung Fu, é bastante diferente dos demais por não ter os movimentos “floreados” que são esteticamente atrativos. Por que isso ocorre? Wing Chun é mesmo um estilo de Kung Fu?

Através da tradição oral deixada pelos antepassados, o sistema é baseado em um estudo minucioso da estrutura do corpo humano e assim, é regido por um potencial uso da estrutura mecânica muscular e óssea de forma a não imitar movimentos dos animais, como é de costume dos demais estilos de kung fu, em razão disto acaba se diferindo em muito dos demais estilos.

Pode se dizer que o Wing Chun é um compendio de efetividade, em sua origem foi agregado conhecimento pratico efetivo, sem basear-se em movimentos que tem beleza estética, valorizando mais sua efetividade para combate, deixando de lado movimentos “floreados” que muitas vezes tem mais valor estético ou ainda para fins de ginástica, o que o torna ainda mais peculiar.

– Como e por que o senhor começou a praticar essa arte marcial?

Desde muito cedo sempre fui fã de filmes de luta, em especial os de Bruce Lee, como sempre fui uma criança muito ativa, isso acabou me levando ao mundo da luta, mesmo porque quando criança eu estava acima do peso, sendo alvo de constante “bullyng”, tomei como meta mudar a rota e seguir meus instintos, me encontrando nas artes marciais.

– Quais os títulos que o senhor possui e qual o significado de cada um deles para o senhor?

Foram muitas competições, hoje já não consigo recordar com precisão de todas elas, porem, recordo dentre as mais emblemáticas os 4 títulos brasileiros, os paulistas, e alguns interestaduais, acrescido das seletivas para campeonatos Internacionais.

Dentre os diversos títulos que alcancei durante minha carreira de esportista marcial, considero o mais importante o de campeão da seletiva para o Mundialito, que ocorreria mais tarde em Baltimore nos E.U.A, pois a disputa foi muito acirrada, todavia, cada uma das minhas lutas, seja na vitória ou na derrota, trouxeram profundas transformações para moldar o que sou hoje, desta forma, considero todas de vital importância.

– Já teve de usar seu conhecimento na arte para se defender?

Sim, algumas vezes e graças ao bom Deus, tive sempre êxito.

– As pessoas estranham o fato de o sistema não possuir as famosas “faixas” que são utilizadas nas demais artes marciais para identificar a graduação do aluno, por que no Wing Chun isso não acontece?

Na verdade não é uma tradição chinesa utilizar-se de coloração de faixas para demarcar graduação, todavia isto vem ocorrendo com mais frequência devido a uma certa imposição do mundo moderno, onde os alunos querem se diferenciar pelas faixas, o que em minha opinião só ajuda a alimentar o ego, todavia, é possível hoje encontrar algumas escolas de Wing Chun que adotaram esta política.

A China demorou muito para adotar certos costumes da cultura moderna, tal como o elástico, assim, as faixas ainda hoje em sua maioria nos vestuários é utilizada para segurar as calças, literalmente.

– O Wing Chun é recomendado para todas as pessoas, independente de sexo e idade?

Sim, porem, eu aconselho sempre a pessoas inteligentes que buscam além dos demais benefícios de uma pratica marcial, a ânsia de algo que vai permear o intelecto de forma mais profunda, fazendo-a questionar muitas coisas e a desenvolver seu senso critico, pessoas com estas características são mais indicadas ao sistema.

– Por que praticar Wing Chun e não outra arte marcial?

Tudo é uma questão de busca pessoal, é como religião, para ser mais especifico, basta vermos a diversidade de religiões cristãs, são diferentes entre si, abordagem, dogmas até mesmo parte do credo, mas em tese, buscam a mesma coisa, assim, o Wing Chun é mais uma opção em meio a tantas, é necessário sentir-se bem com a pratica, seja qual for a modalidade.

– O MMA, que se popularizou nos últimos anos, não tem representantes do Wing Chun entre seus lutadores. Sendo uma arte marcial tão eficiente, por que os atletas não a incorporam aos seus treinamentos para aumentarem sua eficiência na modalidade?

Em minha opinião, isso ocorre porque as técnicas do sistema se diferenciam por não haver regras e demais limitações, essa é uma das principais características do sistema em termos de efetividade, com o sistema de regras, o Wing Chun acaba indo para uma vala comum, restringindo seus pontos fortes, tornando-o limitado.

– O senhor frequentemente costuma viajar para a China para realizar intercâmbio e, também, aprimoramento da arte. Essas viagens são patrocinadas ou o senhor arca com todos os custos?

Na verdade nunca busquei auxilio pecuniário para meus treinamentos, desde cedo optei por estudar e manter uma atividade profissional que me capacitasse a ir em busca de meus ideias, como no ano de 2013 que fiquei 6 meses contínuos residindo na China, tudo por conta própria.

Desde 2010 vou ao Oriente em busca de beber da fonte do conhecimento marcial ancestral, totalizando mais de 1 ano e meio residindo em território chinês.

– Entre os praticantes de outras artes marciais, como o Jiu-Jitsu, existem alunos que fazem um mau uso da arte, sendo denominados como “pit-boys”. Dentro do Wing Chun isso também acontece? E, se acontece, quais medidas são tomadas?

Em todo ugar podem ser encontradas pessoas com má índole, cabe ao grupo ou ao professor detectar a tempo a fim de não recepcionar pessoas assim no meio marcial, ou ainda mantê-lo, todavia, desconheço casos similares no sistema Wing Chun, mas é bem possível que tenha ocorrido ou ainda venha a ocorrer.

Importante frisar que a rate marcial chinesa tem uma forte influencia Taoista e Budista, ambas doutrinas são contrarias à violência e pregam conceitos humanistas.

– Qual o futuro da arte marcial no Brasil?

Não sei precisar e não arrisco palpites. Estamos vivendo um período de escassez de material humano em busca da verdadeira arte marcial, dentro dos moldes tradicionais, a febre do momento são as artes marciais mistas e a consequência para as lutas tradicionais ainda não podem ser mensuradas.

– O que o senhor poderia dizer para quem deseja praticar o Wing Chun?

Eu diria que é um caminho em busca de superação pessoal a cada dia, e que os ensinamentos serão aproveitados em seu cotidiano, que a busca pela vitória do guerreiro moderno é constante e nunca irá acabar, mudam os adversários, os obstáculos e objetivos, mas as ferramentas de superação humana permanecem, como é o caso do sistema Wing Chun.

– Gostaria de agradecer imensamente pela honra de poder entrevista-lo e desejo-lhe ainda mais sucesso.

Eu que agradeço a oportunidade de poder dividir um pouco do que adquiri ao longo destes quase 27 anos de pratica marcial e de disponibilizar seu tempo para tratar de um assunto que é antigo e tão atual.

 

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