“Deputados devem ganhar um salário mínimo”; BDI entrevista o candidato à Presidência pelo PSTU, Zé Maria

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Na estreia do “BDI Eleições” deste ano, entrevistamos o candidato à Presidência da República pelo PSTU, Zé Maria. 

Natural de Santa Albertina – SP, o metalúrgico de 56 anos lutou contra a ditadura, participou da criação da CUT e do PT, de onde foi expulso, posteriormente. Desde 1994, atua pelo PSTU, partido de extrema esquerda, que propõe medidas radicais na atual economia do país. Ele falou sobre sua saída da sigla de Lula, temas polêmicos, como aborto e eutanásia, além da dívida externa brasileira. Confira:

Foto: Romerito Pontes
Foto: Romerito Pontes

Você é a favor de salário mínimo para os deputados. É uma medida que certamente agrada a população. Entretanto, se eleito, como conseguir apoio do senado e da câmara com tal atitude?

É um absurdo que os deputados votem um salário mínimo de pouco mais de R$700 para os trabalhadores, mas votem os próprios salários de mais de R$25mil. Por que então não recebem R$724? Nós defendemos o fim dos privilégios para os políticos, com seus altos salários e outras mordomias. Os políticos devem ganhar um salário de um trabalhador comum.

Todo o nosso programa parte das necessidades e reivindicações da população e, em especial, da classe trabalhadora do nosso país. Isso passa por garantir salário digno, emprego, moradia, serviços públicos de qualidade para todos. Para fazer tudo isso, é preciso outra política econômica, que priorize os interesses dos trabalhadores e não dos bancos e grandes empresas como ocorre hoje. Ora, a esmagadora maioria dos deputados e senadores é eleita através do financiamento desses mesmos bancos e grandes empresas e empreiteiras. Portanto, eles não só não vão apoiar medidas como essas, como vão lutar contra isso. Por isso afirmamos que as mudanças que o povo precisa não virão desse parlamento corrupto formado por representantes dos banqueiros e empresários, muito menos dos governos, mas das lutas concretas da classe trabalhadora e do conjunto da população. Não podemos esperar que os políticos tomem medidas que vão contra seus próprios interesses ainda mais acabar com seus privilégios.

Você participou da criação do PT e era aliado do Lula, depois, teria sido expulso do partido. Acha que a sigla perdeu o ideal esquerdista?

Eu participei da fundação do PT e da CUT, que foram frutos dos grandes processos de mobilização do final da década de 1970 e início dos anos 1980. Na época, Lula era uma das principais lideranças do processo. Chegamos a ser presos juntos com outras direções sindicais em 1980, no final da ditadura, quando fomos enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Apesar dessa história em comum, sempre mantivemos profundas diferenças, tanto política quanto ideológica, de estratégia para o país. Mas apesar das enormes diferenças, estávamos do mesmo lado, ou seja, no campo dos trabalhadores.

Ao longo da sua história, O PT abandonou o que chamamos de classismo, ou seja, a ideia de que os interesses da classe trabalhadora são inconciliáveis com os dos patrões. Ele foi se adaptando, fazendo alianças com os empresários e a direita, e hoje no poder já não se difere muito dos outros partidos que estão aí.

Os pequenos partidos de esquerda sempre lançam seus candidatos. O que te diferencia dos demais com ideais parecido?

Assim como não existe um só partido de direita, também não existe um único partido que represente a esquerda socialista. E é natural que seja assim, afinal, são bases sociais distintas, trajetórias, programas e concepções de partido muito diferentes. Chegamos a conversar com o PSOL, por exemplo, para formarmos uma frente de esquerda que possibilitasse uma candidatura em comum, mas esbarramos na questão do programa e da independência financeira. O PSTU não aceita dinheiro de empresas, empreiteiras ou banqueiros. Nossa campanha é financiada exclusivamente por sua própria militância e por aqueles que nos apoiam. Isso nos possibilita defendermos um programa dos trabalhadores para o país.

Como conquistar o apoio do eleitor sem participação na maioria dos debates e apenas 50 segundos no horário político?

A gente enfrenta não só o reduzidíssimo tempo de propaganda eleitoral, que expressa o caráter profundamente antidemocrático dessas eleições, como também o boicote de grande parte da imprensa, que simplesmente ignora a nossa candidatura. Com isso, é vedado à população o direito de conhecer as diferentes propostas e candidaturas que estão na disputa. São sempre os mesmos que aparecem.
A gente enfrenta este boicote da imprensa com a nossa militância nas ruas, nas portas de fábricas, nos bairros pobres, conversando diretamente com a população e os trabalhadores. E na Internet, principalmente nas redes sociais, tentamos ao máximo furar esse bloqueio divulgando o nosso programa e as nossas propostas.

Foto: Romerito Pontes
Foto: Romerito Pontes

O Brasil deve aproximadamente R$ 3 trilhões, e você é contra o pagamento da dívida. Por quê? O que o Brasil conseguiria nas relações exteriores agindo desta forma?

Sou contra o pagamento da dívida porque ele é, na verdade, um mecanismo de transferência das riquezas produzidas aqui para os banqueiros e investidores internacionais. Hoje, quase metade do Orçamento federal vai para o pagamento e amortizações dessa dívida. Então, é impossível investir mais em saúde, educação, e transporte público, por exemplo, pagando isso. Além do mais, essa dívida é ilegítima, grande parte dela foi contraída no período da ditadura. E já foi paga várias vezes. A própria Constituição de 1988 prevê a realização de uma auditoria na dívida, e isso nunca foi feito, porque eles sabem disso.

Agora, o que ganharíamos não pagando essa dívida? Teríamos muito mais recursos para investir em serviços públicos, na geração de empregos e em salários decentes. É uma falácia essa ideia de que o investimento estrangeiro vem para ajudar o país, muito pelo contrário. O valor que entra como investimento sai duplicado, triplicado, quintuplicado na forma de juros. O que propomos é o fim dessa verdadeira sangria que representa o mecanismo da dívida pública, o maior roubo das nossas riquezas.

O que pensa sobre legalização da maconha, aborto e eutanásia?

Somos a favor da legalização da maconha. O tráfico hoje é a principal justificativa para o verdadeiro genocídio que ocorre nas periferias contra a juventude negra pela polícia. O tráfico movimenta bilhões em todo o mundo e é um negócio extremamente lucrativo, sendo beneficiado justamente por essa política proibicionista.

Da mesma forma, somos a favor da legalização do aborto. Morrem anualmente milhares de mulheres no país por abortos mal feitos. O que existe hoje é uma grande hipocrisia, pois o aborto já é “legal” para as mulheres ricas, que podem pagar por um procedimento desses em clínicas com estrutura. Já as mulheres pobres morrem ou ficam com graves sequelas. Este é um grave problema de saúde pública. Além do mais, as mulheres tem o direito de decidir se querem ou não ter filhos. Junto com a legalização do aborto, somos a favor de uma ampla campanha educativa e de ampliação dos métodos contraceptivos fornecidos pelo Estado para as mulheres. Por isso defendemos Educação sexual para prevenir, anticoncepcionais para não engravidar e aborto legal e seguro para não morrer.

Já em relação à eutanásia, eu penso que todo mundo tem o direito de escolher se quer ou não continuar ligado a um aparelho diante de determinadas circunstâncias, como o sofrimento num estado avançado de uma doença incurável. Tem a ver com garantir a dignidade de um ser humano em seus momentos finais.

Para encerrar: Àqueles cidadãos que estão preocupados com saúde, educação e segurança, por que votariam em você?

Porque a nossa candidatura é a única que apresenta um programa concreto para garantir saúde, educação e demais serviços públicos gratuitos e de qualidade e a única que diz como fazer isso. Serão falsas promessas dos candidatos que afirmarem que é possível garantir mudanças reais para a vida do povo brasileiro destinando quase a metade do orçamento do país para o pagando a dívida pública. Para garantir mudanças de verdade é preciso parar de pagar a dívida, parar de pagar subsídios bilionários às grandes empresas e investir este dinheiro em serviço público e reestatizar as empresas que foram privatizadas, por exemplo.

E isto só é possível de fazer com um governo dos trabalhadores, sem patrões, apoiado na classe trabalhadora unida, consciente e mobilizada que garanta que o fruto do nosso trabalho seja revertido para acabar com a desigualdade social e garantir uma vida digna para a maioria explorada e oprimida.

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