Após ser “provocado” por Bolsonaro, Moro rebate: há uma ‘distância entre o discurso e a prática’

Foto: Divulgação

Pivô no inquérito que investiga se Bolsonaro (sem partido) tentou interferir politicamente na Polícia Federal para blindar aliados, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, rebateu declarações do chefe do Executivo que, via Facebook, afirmou que o desempenho do governo em operações de combate ao crime melhorou com a substituição do ex-juiz na chefia da pasta.

Moro diz que, enquanto esteve no cargo, faltou apoio de Bolsonaro para ajudá-lo a por em prática uma agenda anticrime e anticorrupção.

“Tenho que dizer que não houve um grande apoio do presidente para a maioria dessas iniciativas do Ministério, mas penso que há tempo considerável para que o governo retome algumas dessas bandeiras, como a aprovação da PEC da segunda instância, o que é muito mais efetivo do que a multiplicação de operações policiais de buscas e apreensão”, afirma.

O ex-juiz federal abandonou a magistratura para embarcar no Planalto empunhando justamente a bandeira da luta contra a corrupção e do enfrentamento à criminalidade. Ao aceitar o convite, se tornou peça-chave para legitimar a retórica da campanha bolsonarista que prometeu o fim do ‘toma lá dá cá’.

No entanto, hoje Moro diz que há uma ‘distância entre o discurso e a prática’ do governo.

“O que tem sido noticiado pelos jornais nos últimos meses é um progressivo loteamento político de diversos cargos administrativos dentro do governo, com indicações provenientes principalmente do grupo político denominado “centrão”. Na campanha eleitoral, o presidente havia prometido publicamente rejeitar e coibir essa prática”, declarou Moro ao Estadão.

Enquanto esteve no cargo, o então ministro acumulou reveses, incluindo a desidratação do pacote anticrime formulado por ele e a perda do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Agora que deixou o governo, trazendo a público a pressão do presidente por trocas no comando da PF, recebeu recado de Bolsonaro:

“Com a troca de Ministro da Justiça, como por um passe de mágica, várias e diversificadas operações foram executadas”.

Em resposta, Moro diz que ‘não há passe de mágica’ quando o assunto é implementar políticas de Segurança Pública e garantir autonomia para os trabalhos de investigação e destaca que boa parte das operações recentes deflagradas pela Polícia Federal é resultado de apurações da força-tarefa da Operação Lava Jato.

“Essas operações, em regra, são trabalhadas durante meses. Em alguns casos é questão de anos. Muitas das operações deflagradas recentemente tiveram origem em apurações realizadas durante a Operação Lava Jato e no acordo celebrado com a Odebrecht. Então, não há “passe de mágica”, mas um trabalho duro que vinha sendo realizado na minha gestão e que, em boa parte, foi consequência do meu trabalho como juiz federal”, rebate.

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