Lembrando a censura ao jornalismo brasileiro

Reportagem especial do BDI mostra que além do público, imprensa sofreu com repressão da ditadura imposta pela arquitetura da ‘Operação Condor’.

Cegos, surdos e mudos! Brasil durante a ditadura / Foto: Reprodução

Cegos, surdos e mudos! Brasil durante a ditadura / Foto: Reprodução

Muito sofrimento, angustia e dor marcaram a América Latina durante um regime de ditadura e repressão. Uma dor psicológica, além de física. Governos regidos por militares assumiram o poder do continente e consigo trouxeram a censura, a tortura, a perseguição e o exílio durante décadas.

A tirania começou discreta, na Guatemala, em 1954, quando o então presidente, Jacobo Arbenz, é derrubado e substituído por uma junta militar. Em 11 de julho, o general Alfredo Stroessner comanda um golpe contra Federico Chávez e assume o governo do Paraguai por 35 anos, se tornando o segundo presidente a comandar um país por mais tempo na América Latina durante o século XX, perdendo apenas para Fidel Castro, em Cuba. Até o fim daquele ano, 13 das 20 nações latino-americanas foram dominadas por golpes militares.

Em 1976, um novo golpe tira do poder Jorge Rafael Videla na Argentina, onde quatro juntas militares dominaram o país até meados de 1983. Considerada a repressão mais violenta, os argentinos sofreram com torturas, assassinatos e o número de 30 mil desaparecidos.

Foto mostra protesto argentino contra crianças desaparecidas. / Foto: Reprodução

Foto mostra protesto argentino contra crianças desaparecidas. / Foto: Reprodução

Em junho de 1973, a Frente Ampla cai perante o militarismo de Juan María Bordaberry no Uruguai. O ditador dissolveu o parlamento e suspendeu a constituição, bem como os partidos políticos, associações e liberdades civis. Em setembro, os chilenos viram uma armadilha contra o presidente comunista Salvador Allende, que se suicidou. Augusto Pinochet assumiu o país e criou a DINA (Direção de Inteligência Nacional) que empregava a tortura, o sequestro e a morte de seus ‘perseguidores’. A ação tornou o coronel de engenheiros Manuel Contreras, chefe da Direção, um dos homens mais temidos das Américas. Os regimes de Uruguai e Chile foram até 1985 e 1990, respectivamente.

No Brasil: ‘Ame-o ou deixe-o’

Pouco antes, em 1 de Abril de 1964, ocorria o golpe financiado pelos Estados Unidos que derrubou João Goulart da presidência do Brasil. Castello Branco assumiu o poder e em seguida criou o AI-1 (Ato Institucional), contendo onze artigos impondo mudanças na legislação. Depois, uma lista de cassação e exoneração foi divulgada com 102 nomes de pessoas que eram consideradas ameaças ao regime.

Imagem de brasileiro apanhando de militares durante protesto contra a ditadura. / Foto: Evandro Teixeira.

Imagem de brasileiro apanhando de militares durante protesto contra a ditadura. / Foto: Evandro Teixeira.

Em 1967, Arthur Costa e Silva assume e é atingido por muitas manifestações sociais. Em 13 de Dezembro de 1968, ele decreta o AI-5, considerado o ato mais violento da repressão, outorgando poder quase absoluto ao regime, proibindo manifestações e suspendendo o direito do harbeas corpus.

Após problemas de saúde, o general é substituído por uma junta militar que decretou a Lei de Segurança, oferecendo base ao governo para a prática de torturas e perseguições. No poder até outubro de 1969, a junta elegeu Emílio Garrastazu Medici como presidente.

Com o crescimento da repressão à luta armada, uma severa censura é aplicada para os meios de comunicação, desde jornais, televisão, novelas e até músicas. Qualquer um que estivesse envolvido em atividades ‘suspeitas’ era investigado, torturado e até assassinado.

Durante este período, o Brasil viveu o ‘milagre econômico’. O PIB subia, o país avançava e, portanto, montou-se uma infraestrutura de geração de empregos. Contudo, a dívida externa muito acima do poder econômico crescia demasiadamente.

Conhecido como “Anos de Chumbo”, o período que Médici governou a pátria fôra considerado o mais duro da tirania. O gaúcho foi o criador do slogan ‘Ame-o ou deixe-o’, solicitando aos não satisfeitos com a situação do país, uma vida no estrangeiro.

Brasil convidou brasileiros não satisfeitos a se retirarem do país. / Foto: Reprodução

Brasil convidou brasileiros não satisfeitos a se retirarem do país. / Foto: Reprodução

Ernesto Geisel assume em 1974 e começa a deixar mais branda a situação tensa do país. Ele também foi o mandatário que viu o país declinar após o desenvolvimento no governo anterior. Com o fim do documento AI-5, estabelecido pelo então presidente, o habeas corpus é restaurado.

Em 1978, começa a redemocratização do Brasil. João Baptista Figueiredo assume o poder e cria a Lei da Anistia, cedendo direito àqueles que estavam exilados e condenados pela ditadura. Porém, clandestinamente, alguns militares continuavam a repressão. Em 1979 é aprovada a lei que restabelece os partidos no país.

Sarney e Tancredo durante a campanha para a Presidência da República / Foto: Orlando Brito

Sarney e Tancredo durante a campanha para a Presidência da República / Foto: Orlando Brito

Tancredo Neves é eleito para governar a partir de 15 de janeiro de 1985, todavia adoecido, morre antes de assumir o cargo, o transmitindo ao vice-presidente, José Sarney. A posse de Sarney marca o fim do regime militar e em 1988 é aprovada uma nova constituição que estabeleceu princípios democráticos ao Brasil, dentre eles, eleições diretas para presidente, realizadas no ano seguinte com a vitória de Fernando Collor de Mello.

A arquitetura americana

A América Do Sul vivenciou entre 1970 e 1980 a Operação Condor, uma união político-militar entre os regimes militares ditatoriais do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Essa operação foi dividida em três fases: na primeira firmou-se a troca de informações entre os países-membros, a segunda determinou-se pelas execuções de opositores nos territórios das nações que formavam a aliança, e, por fim, a terceira fase marcou a perseguição e os assassinatos de inimigos políticos no exterior, muitas vezes no próprio exílio.

A “Operação Condor” aceitou a ajuda regional dos países em combate ao crescimento do comunismo. A estabilidade dos governos tiranos era ameaçada por grupos de esquerda e os políticos de direita temiam que a América do Sul se espelhasse em Cuba, resultando na transformação de um conjunto de países comunistas aliados à antiga URSS. Os governos ditatoriais culpavam esses grupos de praticarem crimes como furtos e sequestros.

Telegrama da embaixada americana em Buenos Aires prova conhecimento dos EUA na Operação Condor. / Foto: Reprodução

Telegrama da embaixada americana em Buenos Aires prova conhecimento dos EUA na Operação Condor. / Foto: Reprodução

O governo norte-americano tinha conhecimento da operação Condor, conforme diversos documentos secretos divulgados nos últimos anos pelo Departamento de Estado, inclusive, com participação do FBI na troca de telegramas. Contudo, contrários aos papéis, os estadunidenses negam qualquer envolvimento com a arquitetura e o financiamento dos golpes. A respeito disso, o Professor de história da faculdade Zumbi dos Palmares, formado pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Comunicação Social pela Fundação Cásper Líbero, Pedro Sérgio Pereira ressalva que a ‘invasão’ norte-americana na política alheia não foi novidade durante a o período. “É conhecida a participação dos Estados Unidos em diversos golpes de Estado na América Latina desde o século XIX e não foi diferente entre as décadas de 1960 e 1980. O caso mais notório foi o Chile, em 1973, quando os norte-americanos participaram ativamente na queda do presidente Salvador Allende e o apoio ao general Augusto Pinochet. No Brasil houve colaboração entre representantes do governo do Washington e os golpistas brasileiros. Ao alinhar-se com os Estados Unidos, o Brasil teve acesso a empréstimos da ordem de 100 Bilhões de dólares ao longo do regime militar; foi esse financiamento que permitiu não só as obras de infraestrutura como estimular o desenvolvimento do consumo, principalmente da classe-média“, argumenta.

Camilo e Francesca Cesariego, filhos de Lilian Celiberti e Universindo Diaz, com seus avós. / Foto: Reprodução

Camilo e Francesca Cesariego, filhos de Lilian Celiberti e Universindo Diaz, com seus avós. / Foto: Reprodução

A situação mais marcante de cooperação entre os mandatários latino-americanos, característica marcante da operação condor, aconteceu em novembro de 1978, quando sob consentimento da polícia brasileira, militares uruguaios entraram clandestinamente em Porto Alegre e sequestraram uma família de militantes da oposição política uruguaia, Universindo Rodríguez Díaz e Lilian Celiberti, junto com seus dois filhos, Camilo e Francesca, de 8 e 3 anos de idade, respectivamente.

Lilian Celiberti durante a Comissão depoimento na Comissão da Verdade em 2013. / Foto: Cíntia Siemianko

Lilian Celiberti durante a Comissão depoimento na Comissão da Verdade em 2013. / Foto: Cíntia Siemianko

A estratégia, contudo, fracassou quando o repórter Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Baptista Scalco, alertados por um telefonema anônimo, se dirigiram ao apartamento onde o casal morava e foram recepcionados por homens armados que mantinham somente Lilian presa, visto que os demais membros da família já haviam sido transferidos para Montevidéu. A chegada inesperada dos jornalistas quebrou o sigilo da manobra, obrigando as autoridades a transferirem a mulher para a capital do Uruguai “Se desaparecêssemos, o Brasil ficaria muito comprometido, porque dois jornalistas já tinham nos visto. Se nos matassem, deixaríamos uma pista”, disse Lilian em recente entrevista ao site Carta Maior.

Saiba mais:

* Em 1992 foram encontrados no Paraguai documentos que comprovam a existência de um acordo entre os países do Cone Sul visando facilitar a repressão dos opositores aos regimes militares vigentes à época.
 

Jornais em Branco

Em toda América Latina, redações eram invadidas, os meios de comunicação recebiam alertas dos militares sobre determinadas publicações ou até a proibição das mesmas. As ordens recebidas eram cumpridas à risca pelas empresas jornalísticas que temiam as punições, como torturas, desaparecimento de colaboradores e a morte.

No Brasil, algumas mídias publicavam receitas de bolo no lugar da matéria censurada como forma de protesto, ou somente uma tarja preta, assim o leitor identificava que ali continha uma notícia que fora “cortada”.

Quando chegou o AI-5, esse controle tornou-se mais severo. A CONTEL era a responsável pela censura na mídia. Não se admitia nenhum tipo de publicação que transmitisse algo contra a ditadura, e o que era considerado inadequado, logo era proibido, reproduzindo somente o que os militares julgassem apropriado, portanto, por inúmeras vezes, fatos foram omitidos ou distorcidos.

Jornalista Vladmir Herzog era perseguido pela participação no PCB. / Foto: Reprodução

Jornalista Vladmir Herzog era perseguido pela participação no PCB. / Foto: Reprodução

O caso mais famoso de perseguição foi em 1975 e envolveu o jornalista Vladmir Herzog, militante do Partido Comunista Brasileiro, que atuava na clandestinidade durante o regime. Ele foi torturado até a morte no DOI-CODI de São Paulo, após ter se apresentado ao órgão para “prestar esclarecimentos” sobre suas “ligações e atividades criminosas”.

O laudo da Polícia Técnica de São Paulo apontara suicídio por enforcamento, inclusive com fotos anexadas do corpo. Contudo, na imagem, os pés de Vlado tocam o chão e seus joelhos estão fletidos – posição em que o enforcamento é impossível. Duas marcas típicas de estrangulamento também foram encontradas em seu pescoço.

Foto divulgada pelos militares do suposto suicídio de Herzog. / Foto: Reprodução

Foto divulgada pelos militares do suposto suicídio de Herzog. / Foto: Reprodução

O ato de assassinar e divulgar que as vítimas haviam perecido por atropelamento ou suicídio era comum por parte do governo militar, o que gerou a ironia “suicidados” pela ditadura, muito usada nos ‘anos de chumbo’.

O caso de Herzog foi resolvido somente em 2012, com a Comissão da Verdade, concluindo que a “morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP”, retificando a certidão de óbito.

Na guerra entre as mídias, alguns veículos apoiavam a tirania e eram favorecidos por tal atitude. Sobre esse assunto, o Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa, colunista de televisão, e por muitos anos, comentarista político do programa “Gente que Fala”, da Rádio Trianon – SP, James Akel, fala sobre a criação da TV Globo “A emissora de Roberto Marinho foi criada para dar apoio ao regime, já que os militares não confiavam na TV Tupi e não acreditavam na TV Excelsior, que era de um amigo de João Goulart. Roberto já tinha um jornal que combatia os comunistas e foi visto como ideal para o projeto que juntou dois coronéis e um representante da Revista Time, que entrou com o dinheiro no começo“, afirmou.

Faixa estendida por jornalistas contra censura da ditadura. / Foto: Reprodução

Faixa estendida por jornalistas contra censura da ditadura. / Foto: Reprodução

James, na época apresentador do programa “Quem quiser que conte outra”, da TV Excelsior, viu colegas de profissão com a carreira prejudicada por posicionamentos contrários ao que pregava a ditadura “Flávio Cavalcanti, que até lutou pela revolução, mas não admitia uso da tortura pelos militares e falava isso publicamente foi derrubado pelos militares de direita. Ele foi o único artista suspenso por 60 dias em determinação da censura“, conclui.

Roberto Marinho e as “relações de poder”. Com os ex-presidentes Costa e Silva e Figueiredo, e o ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães. / Foto: Reprodução

Roberto Marinho e as “relações de poder”. Com os ex-presidentes Costa e Silva e Figueiredo, e o ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães. / Foto: Reprodução

Com apoio financeiro e tecnologia avançada em relação às rivais, a Globo viu as demais emissoras decaírem e confirmou sua consolidação na preferência do público brasileiro, preferência esta que desfruta até hoje.

No fim dos anos de chumbo, a América latina recuperou sua autoestima, ligou seus microfones novamente e o jornalismo voltou a noticiar os fatos como são, com algumas exceções, é claro. A dor, porém, de saber o quão sofreram profissionais que só estavam trabalhando ainda amedronta àqueles que foram silenciados pelo medo e relembram os fantasmas do passado que tanto os assombraram.

Por Gabriely Audrey e Lucas Canosa

Agradecimentos: James Akel, Pedro Sérgio Pereira, Renato Vaisbih e Flávio Mesquita

@LucasCanosa

Mande seu e-mail para Lucas Canosa : lucascanosa@bastidoresdainformacao.com.br