A Origem Evolutiva do Amor

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A Origem Evolutiva do Amor

 

Há algo mais curioso que o amor?

Seu coração bate mais rápido, seu corpo libera suor e hormônios que faz você se sentir quente por dentro tão bem que torna-se difícil descrever em palavras. Mas, biologicamente/evolutivamente falando, como ele surgiu na espécie humana? Como e por quê os nossos ancestrais deram espaço ao amor romântico, e não apenas sexo com intuito procriativo independente do parceiro(a)?

holding hands

Antes, deve-se esclarecer que, antigamente, nossos antecedentes eram poligâmicos. Não havia monogamia, ou seja, o relacionamento exclusivo entre uma pessoa e seu respectivo cônjuge, sem abertura consensual para outro relacionamento simultâneo. A transição da cultura poligâmica para a cultura monogâmica, em nossa sociedade, surgiu com o crescimento populacional localizado promovido pela agricultura, mas a causa desta transição é alvo de intenso debate na comunidade científica. Algumas das causas mais prováveis consiste na prevenção do infanticídio, hábito comum em nossa cultura antigamente, cuidado parental para sobrevivência da prole e, recentemente, um artigo publicado na Science, mostra que a monogamia pode ter sido estimulada pela prevalência das DSTs, que teriam crescido com a estagnação da população humana promovida pela agricultura. Pois bem, não iremos discorrer aqui sobre a transição da poligamia para a monogamia, porém, foi neste momento de transição para monogamia que surgiu o amor romântico entre os casais, favorecendo que estes passassem mais tempo juntos e cuidassem da prole, favorecendo, assim, a reprodução, sobrevivência e continuidade de nossa espécie.

Tem-se debatido que o amor depende de algumas regiões do cérebro que surgiram de forma relativamente recente em nossa história evolutiva. O giro angular, por exemplo, parece ser crítico para o processo do amor, conforme averiguado em uma pesquisa conduzida por Stephanie Cacioppo, Universidade de Chicago em Llinois, USA. A pesquisador utilizou como recurso a ressonância magnética funcional para descobrir o papel desta região no processo do amor.

Evidentemente, não é fácil definir o amor. Todavia, separa-se o mesmo em alguns estágios:

– Desejo sexual: Neste estágio há a atração pelo cônjuge, onde o “simples” toque libera substâncias químicas que nos fazem sentir bem e o intenso desejo de estar com o cônjuge.
Eis as principais regiões do cérebro envolvidas neste estágio: a ínsula, área pertencente ao sistema límbico e responsável pelas experiências emocionais intensas, e a região frontal do estriado, parte de nosso sistema-recompensa do cérebro, o que nos faz viciar nas coisas, incluindo o sexo. Pesquisas mostram que apenas de olhar para rostos atraentes, este sistema é ativado. Evidentemente, a ocorrência da relação sexual não é essencial neste primeiro estágio do amor, e sim, há o desejo e maior atração pelo cônjuge.

– Amor romântico: Consiste em uma progressão do desejo sexual que leva diretamente ao amor a longo prazo. Aqui, o sistema límbico também desempenha um papel crucial, liberando, por exemplo, dopamina e ocitocina, hormônios que nos causam imenso bem-estar. Essa liberação constante quando estamos com o nosso bem-amado(a), mantém-nos unidos.

Interessantemente, além das áreas estimuladas para secreção dos “hormônios do bem-estar”, outras regiões do cérebro são suprimidas. O córtex pré-frontal, por exemplo, possui algumas de suas regiões desativas no amor, sendo ele uma região fundamental no raciocínio lógico. Aí está a explicação de tantas pessoas não pensarem racionalmente quando estão apaixonadas, ou mesmo da expressão “cego de amor”. Existe uma base científica para isso. Outro evento consiste no fato de que a serotonina, que auxilia a nos mantermos calmos, também está suprimida no amor, e por isso há diversos casos de obsessão por “amor”.

Acontece que, com o passar do tempo, os níveis de serotonina e mesmo dopamina tende a normalizar. A ocitocina então torna-se a principal responsável por continuar o bem-estar do casal. Curiosamente, se suprimirmos os níveis de ocitocina em roedores, por exemplo, os indivíduos deixam de ser monogâmicos, adotando como hábito a poligamia.

O fato de termos o cérebro relativamente mais desenvolvido que as outras espécies e demais primatas, não nos coloca num patamar exclusivo de relação amorosa. Tanto os seres humanos quanto os demais animais, ao serem privados/separados do amado(a), passam por processos similares de dor emocional. O sistema límbico, por exemplo, já mencionado pela sua participação no processo emocional do amor, encontra-se tanto em mamíferos e mesmo em répteis.

Se voltarmos ainda mais na evolução, antes dos répteis, os demais animais foram “preparados” para pelo menos alguma forma de amor para unir as espécies, mas em nossos ancestrais, o desenvolvimento peculiar do nosso cérebro resultou no surgimento do amor romântico.

Evolutivamente falando, o amor fez com que mantivéssemos unidos ao respectivo cônjuge, passando mais tempo juntos e propiciando, desta forma, a proteção na gravidez e o cuidado parental, ou seja, a proteção da prole. Desta forma, eleva-se as chances do sucesso reprodutivo e continuidade da espécie, que se tornou um problema com os velhos hábitos da poligamia quando mudamos nossos hábitos de caçadores/coletores para uma cultura agrícola e urbana.

O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo”.
Mahatama Gandhi

Referências:
http://www.bbc.com/earth/story/20160212-the-unexpected-origin-of-love

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Autor: Cainã Max Couto da Silva – Biólogo, pesquisador e fundador do Canal Biociências.

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