A morte de Tancredo Neves

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Por que, após 30 anos, ainda surgem tantas perguntas sobre o real motivo da morte de Tancredo Neves? Fatalidade, negligência, imprudência ou algo pior? Talvez, como muitos casos blindados do Brasil, independente de que época, jamais poderemos saber o que aconteceu. 

Parte 1 do texto

tancredo e dona risoleta na igreja don bosco inicio do suplicio na hospital de base foto daniel de andrade simões

MÉDICOS: BRASÍLIA X SÃO PAULO 

Sabemos que existe um código de ética, fiel e firme entre os médicos, sabemos o que acontece no centro cirúrgico, fica no centro cirúrgico, mas quando há pessoas que não pertencem a esse círculo, surgem verdades, aí então as suspeitas aparecem. 

Em Brasília, médicos discordavam de diagnósticos, salas de cirurgias e procedimentos. O alto ego era notado já de início por alguns da equipe do presidente, mas passou despercebido pela família. O problema aumentou, segundo Britto, quando a equipe foi com o presidente para sala de cirurgia do 2º andar. Tudo preparado, porém faltava cirurgião e anestesista, que estavam no subsolo. Por dez minutos os médicos tiveram um bate boca pelo telefone, um mandava descer o presidente o outro gritava para equipe subir. Ficou nesse empasse até alguém intervir: “Quem vai falar com a família para dizer sobre essa mudança de sala”? Foi quando houve um acordo e os médicos subiriam para a operação. 

E foi assim que aconteceu a primeira cirurgia de Tancredo Neves, 14 de março de 1985, com aproximadamente 60 pessoas dentro e fora do centro cirúrgico. 

A misteriosa morte Tancredo Neves 1

FORAM SETE CIRURGIAS EM QUASE 38 DIAS: 

  • 1ª cirurgia: diverticulite; Encontraram um tumor que foi para biopsia, mas nem todos concordaram e acreditavam que era diverticulite; 
  • 2ª cirurgia: após dois dias da primeira operação surgiu o problema do abdômen distender. Obstrução intestinal; 
  • 3ª cirurgia: Hemorragia Digestiva Baixa (HDB), sangramento de uma artéria. A cirurgia de intestino seria para introdução de uma sonda, quando Pinotti, médico de São Paulo, percebeu que a técnica da sutura (costura) de Pinheiro, médico de Brasília, estava desfeita. Foi chamada de “técnica obsoleta”. A partir daí o clima ficou tenso entre os médicos de Brasília e de São Paulo. 

Estou tão cansado”, comunicou o presidente para o Britto em relação à terceira cirurgia. 

  • 4ª cirurgia: Hérnia encarcerada. A alça do intestino ficou presa no músculo da hérnia, solta conseguiu-se eliminar a obstrução intestinal.  

No duelo de egosm os médicos Pinheiro e Pinotti, que eram amigos há anos, se desentendem, quase uma briga física, no corredor da UTI do HDB, segundo a porta-voz da Presidência. 

 

  • 5ª cirurgia: Laparostomia exploradora de abdômen. Após febre alta, dificuldades na respiração e exames apontando bacteremia (presença de bactéria no sangue) fez a cirurgia para saber o foco da infecção; 

 

  • 6º cirurgia: Traqueostomia: O paciente não pode ficar muito tempo entubado, então optaram para uma intervenção cirúrgica de abrir uma incisão abaixo do pombo de Adão para que respire e não prejudique as cordas vocais; procedimento normal nesses casos; 

 

  •  7ª cirurgia: Laparostomia exploradora de abdômen. Descobrir o foco de infecção no abdômen e descobre- se que o local aberto está com muita secreção purulenta. 

 

Depois dessa cirurgia, a saúde de dr. Tancredo piora muito. Após 38 dias de luta e vários boletins negando o real estado do presidente, morre o homem da esperança. 

 

CURIOSIDADES DESSA TRISTE HISTÓRIA BRASILEIRA 

HBDF

 

  • Na primeira cirurgia, o centro cirúrgico do Hospital de Base (HDB) havia quase 60 pessoas para assistirem a cirurgia, políticos, funcionários do hospital e curiosos; 
  • Os médicos de Brasília achavam desmoralizante médicos de São Paulo no local. HDB e médicos ficariam sem credibilidade no país; 
  • A peça tirada do abdômen tem o tamanho 6,5cm x 1,5, onde uns diziam ser divertículo e uns que era um tumor de leiomioma; 
  • No desesperom os netos chamaram o guru Rá, Thomas Green Morton. O famoso ilusionista entortava garfos, moeda de cruzeiro viravam dólar e perfume de flores saía das mãos; 
  • Foram nove fotos com o dr. Tancredo e os médicos, depois convenceram D. Risoleta a posar na foto. Tiveram o cuidado de os médicos Pinheiro e Pinotti não sentarem próximos; 
  • Foram 48 boletins, mas apenas os últimos passavam levemente o real estado do presidente; 
  • Existiram seis diagnósticos diferentes; 
  • Quase foi feita a oitava cirurgia para explorar focos de infecção; 
  • Britto cita em seu livro que não esquece a frase do presidente na primeira cirurgia, “Vamos sofrer juntos, Britto”; 
  • O porta- voz estava no meio de boatos (funcionários do hospital) e boletins não tão fieis ao verdadeiro estado de saúde do paciente, por isso médicos e enfermeiras davam informações aos jornalistas do que acontecia lá dentro; 
  • Dois laudos, um falso. Divertículo e outro de tumor. 
  • O Brasil já chorava a morte do presidente, a imprensa tinha informações privilegiadas, todos sabiam, menos a família; 
  • Por último, pouco antes de falecer, foi chamado o infectologista, Warren Zapol, especialista em infecções pulmonares, mas nada podia fazer, era tarde. 

FATOS QUE LEMBRAM O EPISÓDIO DA MORTE DE TANCREDO 

  • Hino Nacional cantado pela maravilhosa Fafá de Belém, tão peculiar e cheio de sentimento; 
  • Coração de estudante, canção que dr. Tancredo gostava, do mineiro Milton Nascimento.   

O que aconteceu naquela noite de 14 de março de 1985? Os brasileiros precisam saber! 

Três Poderes, toda quinta-feira, às 13h, no BDI.

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