A Farsa continua intocada e sem culpados no Riocentro

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Na noite do dia 30 de abril de 1981, por volta das 21h, aos versos da música Banquete de Signos, em que Elba Ramalho animava mais de 20 mil pessoas no Pavilhão do Riocentro em comemoração ao Dia do Trabalhador, houve a primeira explosão.  

O segundo atentado bomba só seria notado por algumas pessoas e funcionários que estavam próximas ao palco e da subestação de energia do lugar. No momento, Alceu Valença cantava os versos “Coração bobo, coração bola, coração balão, coração São João…”, quando o público olhou, simultaneamente, para trás após ouvir um estrondo abafado.  Mas, mesmo após o incidente, os organizadores mantiveram o show. Artistas só saberiam da primeira bomba detonada quando saíam do palco. 

Iniciava naquele momento uma das farsas mais pertinentes dos tempos da ditadura, o atentado ao  Riocentro. 

Este evento foi marcado por uma morte, vários culpados e uma manobra do 1º Comando do Exército Brasileiro do Rio de Janeiro. 

O caso do Riocentro foi um dos atentados a bomba que marcaram o país e poderia ter acabado numa grande tragédia urbana. Mas, eventos parecidos vinham acontecendo aproximadamente há um ano. Militares de extrema direita e ligados a grupos anticomunistas atacavam lugares por acharem que eram subversivos. Bombas explodiam em bancas de jornal, na Ordem dos Advogados, Câmera Municipal do Rio de Janeiro e um atentado, mal sucedido, na  Associação Brasileira de Imprensa. O país vinha descontente com tantos ataques e terror pelas ruas das capitais, e nada estava sendo apurado.  

Mais de 46 ataques, somente em 1980, foram assumidos pelos grupos rebeldes. A insatisfação de alguns militares eram com a abertura da política no governo do General João Batista Figueiredo e o medo do fim da ditadura. 

Fotos: Reprodução

Fotos: Reprodução

 

Fatos que antecederam o atentado: 

  • No mesmo dia do evento, pela manhã, por ordem de superiores, a suspensão do policiamento no local; 
  • Maria Ângela, gerente do Riocentro na época, substitui o gerente de segurança pelo gerente do estacionamento;  
  • Carro não oficial, com placa falsa e dois oficiais; 
  • Dos 28 portões, cinco apenas estavam destrancados; 

Antes do acontecido fatos estranhos antecederam a tragédia daquela noite. Mas, por que foi suspenso, pela manhã, o policiamento do 18º Batalhão da Polícia Militar (18º- BPM) para aquele evento de tamanha proporção? Não era apenas a falta de policiais no lugar, mas algumas irregularidades dos organizadores assustariam até nos dias de hoje. Dos 28 portões, apenas cinco estariam abertos, para um local que comportava mais de 20 mil pessoas. Essa tragédia anunciada lembra algum episódio atual? Pois bem, esse atentado estava sendo planejado há mais de um mês, entretanto militares negam e dizem que só souberam apenas uma hora antes. Mentira! Investigações do Exército concluíram que agentes do próprio comando estavam envolvidos.  

Várias perguntas surgem e muitas não serão respondidas. Contudo, quem mandou militares para essa missão? Afinal, militares recebem ordens, não assumem tarefas sem comando. Qual era a intenção desse grupo que envolvia militares e civis nesse grande evento? Conforme investigações, a primeira bomba seria jogada no palco dos artistas  e a segunda na subestação de energia para causar tumulto e correria no escuro, sendo que poucos conseguiriam sair do local, pois só haveria cinco portões abertos. Mas, por má sorte a bomba é detonada antes mesmo de ser armada e a segunda não alcançou a caixa de energia. 

O show era o 3º evento em comemoração ao Dia do Trabalhador nos tempos da ditadura. A cada evento aumentava a participação da população e artistas engajados que pediam um país democrático. 

Artistas que estava no show:  

  • Elba Ramalho; 
  • Alceu Valença; 
  • Beth Carvalho; 
  • Simone;  
  • Chico Buarque; 
  • Zizi Possi; 
  • Fagner; 
  • Gonzaguinha; 
  • Gal Costa; 
  • Cauby Peixoto; 
  • Djavan; 
  • As frenéticas; 
  • Clara Nunes; 
  • Cristina; 
  • Ângela Ro Rô; 
  •  Céu da Boca; 
  •  A Cor do Som; 
  • Francis Hime; 
  • Ivan Lins; 
  •  Ivone Lara;
  • João Bosco; 
  •  João Nogueira; 
  • Miúcha; 
  • Paulinho da Viola; 
  • MPB- 4; 
  • João do Vale; 
  •  Roberto Ribeiro; 
  • Novelli. 

 

Ao final do show é anunciado por Gonzaguinha o atentado, “Pessoas contra a democracia jogaram bombas lá fora para nos amedrontar”. Chico Buarque também declara em entrevista, “É um ato terrorista contra o 1º de maio, contra o Dia do trabalhador e contra o povo brasileiro”.  

 

No Ministério Federal do Rio de Janeiro são seis denunciados: 

  • General Newton Cruz- Continua afirmando que só soube do atentado uma hora antes e não deu importância do fato. Alega que o problema era do DOI e não do SNI;
  • Capitão, na época, Wilson Machado nega até hoje seu envolvimento, se diz vítima do atentado;
  • Delegado Cláudio Guerra- em depoimento diz que tinha conhecimento das bombas:
  • Major Divany Carvalho Barros- Em depoimento diz que foi designado para o local da explosão para retirar qualquer prova que incriminasse os militares, está sendo processado por fraude processual;
  • General reformado Edson de Sá Rocha- preferiu fica calado;
  • Nilton Cerqueira- Comandante da Polícia Militar, responsável por suspender o policiamento no dia do atentado. Sua justificativa foi que o evento era de âmbito particular;

 O que foi feito aos culpados após 34 anos? 

Fotos: Reprodução

Fotos: Reprodução

Nada. Até o momento todos estão reformados e vivem muito bem. Militares que se recusaram a participar da farsa preferiram se afastarem ou se aposentaram. Pelos trâmites da justiça lentamente está sendo averiguado. Procuradores afirmam que os acusados cometeram um crime contra o Brasil e não são cobertos pela Lei da Anistia.   

Em 2014 o General Wilson foi depor na Comissão Nacional da Verdade, acompanhado do seu advogado, e pouco falou. Outros só falam perante a justiça e mantém a fiel e oculta verdade dos fatos daquela noite.  

Novidades do caso:

Aberto o segundo inquérito, encontrou-se uma agenda marrom que foi recolhida por Divany Barros no dia da explosão. Essa agenda que passou “despercebida” pertencia ao sargento Rosário. Nela, havia nomes importantes ligados a diversos ataques, telefones de veículos de comunicação. Aguarda- se o ato de delação premiada para o caso. 

E se o plano tivesse dado certo? 

Os comunistas seriam culpados, mesmo sem provas, e com todas as provas deles, o Brasil não tinha avançado para as Diretas Já. Vidas inocentes teriam sido sacrificadas por um interesse terrível de militares que não aceitavam uma abertura democrática, em que se planejava manter o terror a sete chaves. Hoje, maravilhosos cantores, compositores e interpretes poderiam ser apenas uma triste lembrança.  

Uma bomba mal planejada ou forjada pode mudar a história de um país! 

 

Três Poderes, toda quinta-feira, às 13h, no BDI.

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