12º Encontro dos Ex-alunos do Seminário do Ibaté

Foto: Vander Luiz
Foto: Vander Luiz

O Seminário Menor Metropolitano “Imaculado Coração de Maria” foi inaugurado em 1949 no bairro do Ibaté, em São Roque. Até 1973 recebeu alunos que viveram uma inesquecível experiência de vida. A grande maioria não confirmou a vocação ao sacerdócio. Na vida religiosa ou seguindo outros caminhos, os ex-alunos do Seminário do Ibaté se reúnem a cada dois anos no antigo prédio.

O primeiro encontro foi em 11 de dezembro de 1993 e celebrou a amizade. Cada edição é registrada com uma placa comemorativa no obelisco de entrada e tem um tema específico.

Convidado pelo ex-seminarista Eduardo Santiago (Manga) acompanhei o encontro de 2015 no dia 29 de agosto. No “12º Encontro dos Ex-Alunos do Seminário do Ibaté” além da amizade (1993) ocorreu a celebração da vida (26 de agosto de 1995), dos valores humanos (30 de agosto de 1997), da gratidão (21 de agosto de 1999), da esperança (1º de setembro de 2001), da alegria (23 de agosto de 2003), da confiança (20 de agosto de 2005), da paz (25 de agosto de 2007), da família (22 de agosto de 2009), da união (27 de agosto 2011), da saudade (24 de agosto de 2013) e da perseverança (2015).

A perseverança foi descrita durante a missa por Alfredo Barbieri que foi seminarista entre os anos de 1949/53. Integrante da primeira turma, Barbieri lembrou da perseverança necessária para que aqueles meninos seguissem o caminho vocacional fugindo das ameaças principalmente no período de férias. “Ouvíamos a advertência para evitarmos as Filhas de Maria (que também eram filhas de Eva), as primas, as vizinhas (Ah! As vizinhas). Éramos vigiados para que fôssemos perseverantes… Perseverança que nos torna atuantes nos mais diversos setores da vida… A perseverança é o caminho que nos traz de volta pela 12ª vez junto ao teu coração de mãe…”

Além do encontro, durante o ano são realizados jantares em São Paulo, futebol a cada seis meses e a circulação bimestral do Jornal “Echus do Ibaté. Por ser do tipo que perde o amigo mas não perde a piada, cometo o sacrilégio de dizer que não tem nada a ver com “exus”. Em latim, “echus” significa “ecoar”.

A quantidade de padres ordenados é pequena se levarmos em conta que em vinte e quatro anos de funcionamento cerca de mil e duzentos alunos passaram pelo Seminário do Ibaté. Em torno de duzentos se formaram e boa parte deixou a batina.

Foto: Vander Luiz
Foto: Vander Luiz

Por outro lado, alguns chegaram a bispo. Entre eles, Dom Décio Pereira (bispo de Santo André) e José Maria Pinheiro (bispo de Bragança que mora na França).

No entanto, a vida desses homens ficou marcada para sempre. Uma prova disso foi dada por Darcy Corazza que nasceu em 1931 e faleceu em maio de 2015, em Praia Grande. Corazza foi da primeira turma do Ibaté (1949) e o primeiro ibateano a ser ordenado padre. Deixou a batina, constituiu família e como último desejo pediu para ser cremado e ter as cinzas jogadas no antigo seminário. Jogar não é o termo correto. É melhor usar as palavras do orador Alfredo Barbieri. “As cinzas foram espargidas”.

Esse não foi primeiro caso. Em 2011, faleceu José Maria Germano que pediu que as cinzas fossem espargidas no alto do Morro do Saboó.

Primeiro encontro
Nas poucas horas que estive no Seminário do Ibaté tive a oportunidade de ouvir muitas histórias interessantes.
A primeira conversa foi com Wilson Mosca um dos coordenadores do evento que explicou como tudo começou.
“A ideia de reunir ex-alunos surgiu em Pirapora do Bom Jesus. Os padres da Arquidiocese de São Paulo eram formados em Pirapora pela Ordem Premonstratense. Houve um rompimento e o arcebispo de São Paulo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta decidiu criar o Seminário do Ibaté”.

Mosca disse que sente uma alegria e uma tristeza por conta da situação de abandono do seminário que recebe apenas encontros de casais e de jovens das paróquias da Arquidiocese de Osasco da qual faz parte São Roque. Desde 1976, Romualdo Ribeiro é o responsável pela manutenção do imóvel com a esposa, um filho e funcionários eventuais.
“O ideal seria que aqui funcionasse uma faculdade por ter toda estrutura, mas existe uma complicação burocrática. A Arquidiocese comprou o terreno e outras pessoas doaram parte de propriedades fazendo com que a área passe de 40 alqueires. As doações foram feitas para um fim específico, a construção do seminário. O uso para outra atividade pode fazer com que algum herdeiro entre com ação na Justiça”, explica Mosca, que no seu tempo de seminarista vinha de Salto até São Roque de trem fazendo baldeação na estação de Mairinque.

Buscando mais detalhes fui informado por José Carlos Dias Bastos (Zé do Nino) que o terreno do seminário foi comprado do pai dele [Antonino Dias Bastos].

A grande dificuldade dos organizadores foi a de localizar todo mundo depois de tantos anos. Foi aí que entraram em ação Antonio Carlos Corrêa (Careca) e Antonio Simões (Sherlock). Ex-enfermeiro dos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein, Simões ganhou o apelido do famoso detetive inglês Sherlock Holmes por ter levantado informações do ex-alunos. Isso no início dos anos 90, quanto não existiam internet e redes sociais.

“Foi na base da lista telefônica. O Careca conseguiu a relação dos nomes depois de uma longa pesquisa no Arquivo da Cúria. Localizei ex-alunos em todo o Brasil e no exterior com contatos na América Central, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Holanda e Japão”, relata Simões.

Sun Ken Mi trabalha com informática nas Ilhas Cayman, no Caribe, e faz questão de retornar ao Brasil a cada dois anos para participar do encontro.

Walter Barelli, ex-ministro do Trabalho
Entre tanta gente que seguiu um rumo diferente na vida está o economista Walter Barelli que foi ministro do Trabalho no governo Itamar Franco (1992/94), secretário do Emprego e Relações do Trabalho no Estado de São Paulo nos governos Mário Covas e Geraldo Alckmim (1995/2002) e deputado federal pelo PSDB (2003/2007). Barelli estudou no Seminário do Ibaté em 1951/56.

“Primeiro fiz uma visita com um grupo por indicação de um padre da paróquia do Belém (São Paulo). Viemos em cinco, entre eles o Antônio Gaspar hoje bispo emérito de Barretos”, recorda Barelli que completou os seis anos oferecidos pelo Seminário do Ibaté. Por isso, a denominação oficial de Seminário Menor Metropolitano. A segunda e última etapa dos estudos era feita em um “seminário maior”.
“No sexto ano ganhei o direito do usar batina. Foi como receber um diploma. Depois fiquei um ano no Seminário Central do Ipiranga. Para ser padre precisaria estudar mais seis anos”, lembra com tranquilidade o ex-presidente do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e professor aposentado da Unicamp.

“O clero tinha uma boa base. Aprendi latim, italiano, francês, espanhol e tive uma introdução ao inglês. Tinha até aula de grego. Era preciso ter essa formação porque no Seminário do Ipiranga as aulas eram em latim. Os ex-seminaristas entravam com facilidade na Faculdade de Direito do Largo São Francisco que tinha prova oral, mas preferi ser economista.”

Sobre a rigidez no ensino e da rotina do seminário, Barelli diz que tudo tinha um movimento organizado. “Fila para a igreja, para o refeitório, sala de estudos. Tudo era muito rígido tinha até a hora do silêncio. Quando a gente saiu daqui achou que poderia ter sido um pouco mais leve.”

Barelli cita a visita dos familiares “quando se comia frango assado no meio do bosque”. Lembra também da “viagem” de São Paulo ao Ibaté.

“Na Estação Júlio Prestes pegava o trem da Sorocabana que era chamado de ‘soca banana’. O ônibus que vinha de São Roque até o seminário era da Viação Nossa Senhora da Penha. Tinha o caminhão dos Doces Neusa que de vem enquanto aparecia no pátio do seminário.”

“A minha falecida esposa definia bem esse nosso reencontro dizendo que a gente voltava a ser criança. O artista sanroquense José Justo da Silva retratou bem isso com as ilustrações que fez para este encontro, onde mostra crianças brincando. O Justo era filho do padeiro”. Quinzinho Justo tinha uma padaria em São Roque na rua Marechal Deodoro em frente ao Grupão (Bernardino de Campos).
“Na vida pública sempre olhei com carinho para São Roque. Estive na cidade muitas vezes, uma delas para a implantação do Banco do Povo”, finaliza Walter Barelli.

Também reencontrei amigos
Tive também a oportunidade de rever amigos. Reencontrei Luiz Roberto Soares (Beto) vereador em São Roque (1983/88) quando Araçariguama pertencia a São Roque.
“Fui seminarista entre 1964/69. Minha família era bastante religiosa. O vigário de Araçariguama [José Jair do Nascimento Doval] também era professor no seminário. Uma pessoa que segui todos os seus passos por mais cinquenta anos até a sua morte há alguns anos”, lembra.
Apesar da família morar perto do seminário, Beto não tinha mordomias. “Tinha apenas uma molezinha. Meu pai era cobrador de ônibus na linha São Roque-Araçariguama e passava em frente do seminário. Eu tinha permissão para deixar a roupa suja na casa de um senhor que morava em frente ao seminário e entregava para o meu pai. Minha mãe mandava cartinhas no meio da roupa e sempre colocava uma lata de leite condensado que eu comia à noite quando todas as luzes eram apagadas. As vezes tinha que dividir com alguém para não ser dedado”.
Descontraído, Beto entregou o apelido de ex-colegas sanroquenses. “O Luiz Roberto de Oliveira era chamado de Bexigão por conta das espinhas no rosto, mas todo mundo tinha apelido. Eu era o Araçá, o Márcio Pereira era o Paçoca porque a mãe dele sempre mandava esse doce. O jornalista Roque Alves de Lima era o Jamelão”.
Já o meu anfitrião Eduardo Santiago virou Manga por influência do ex-goleiro do Internacional. “Eu jogava de goleiro e virei o Manguinha”.

A relação de Manga com o Seminário do Ibaté começou ainda na infância. “Meu pai Joaquim de Oliveira Santiago tinha um sítio vizinho ao seminário. Eu participava das missas e a minha primeira comunhão foi aqui na noite de Natal de 1966. Todo esse ambiente me chamava a atenção. Queria participar, levar a vida dentro de seminário. Queria viver aqui. Era fascinado pela vida sacerdotal de coleguismo e amizade.”

Apaixonado por futebol, Manga destaca as atividades esportivas no seminário. “Tinha o dérbi entre o Galo de Ouro e o Leão de São Marcos. A gente praticava basquete, vôlei, natação e jogava espiribol”.

Nesta brincadeira, pouco conhecida, a bola é presa a uma corda e a outra ponta é fixada na ponta em um mastro. Ganha quem conseguir enrolar a corda no mastro no lado escolhido pelo jogador ou dupla.

Destaca ainda a gruta com a imagem de Nossa Senhora de Lourdes. “Toda noite após a refeição a gente rezava o terço neste local”. Por sinal, a gruta é o local mais procurado para fotos.

Manga viveu o encerramento das atividades do Seminário do Ibaté em 1973 e aponta os motivos para o fechamento. “Um investimento muito alto para manter toda a estrutura e no final a formação de poucos padres. Hoje são poucos os seminários. O jovem que tem vocação é agregado em uma paróquia”. Manga chegou a se transferir para o Seminário da Penha onde ficou até o final de 1974.

Como todo ex-aluno guarda com carinho as lembranças dos anos vividos no Seminário Menor Metropolitano São Roque. Por isso, para encerrar voltou ao texto de Alfredo Barbieri na Missa do Reencontro.

“Foi tudo um mar de rosas? Certamente que não. As saudades de casa, a rigidez da disciplina, o fracasso nos estudos, os desentendimentos e rusgas, a mágoa por alguma injustiça… Mas a alegria do convívio, a fé, a confiança na proteção da Mãe Imaculada, o apoio da família, nos fizeram superar tudo e, hoje, temos saudades (só se tem saudades do que foi bom).”

 

vander - site  Você pode ler mais textos de Vander Luiz acessando o sitevanderluiz.com.br

Escreva: vanderluiz@bastidoresdainformacao.com.br

Deixe uma resposta